O desfecho d’este relanço devia ser tambem irrisorio. Nicoláo de Mesquita recaiu de golpe sobre o sellim, retorceu de violento empuxão o pescoço do cavallo, deu-lhe de esporas com frenesi, e despediu n’uma corrida desapoderada por aquella rechan do Valle d’Aguiar fóra, e tão cosido ás crinas do fumegante alasão, que dava uns longes de Mazeppa, arrebatado pelo corcel creado na vertiginosa phantasia de Byron.

E Margarida Froment ria-se, em quanto o pasmado arrieiro exclamava:

—O cavallo endoideceu! Vae-se esbarrar com dez milheiros de diabos!

A franceza sorriu ainda, e disse serenamente:

—Vamos para o Porto.

Nicoláo havia transmontado o horisonte, fechado por uma gandra. Nem uma só vez voltara o rosto. Espicaçava-o um demonio zombeteiro, cascalhando as palavras: Ridiculo é o seu amor dos quarenta annos...

Quem disse a Margarida que Nicoláo amava a sobrinha de Chaves? Os romancistas, desconsiderados ou distrahidos, faltam com a cortezia devida aos leitores, descuidando-se em responderem a estes reparos justos, com que a critica amoravelmente nos dá o seu beliscão.

A franceza, quando ia caminho do Vidago, pernoitou em Villa Real. Ao arraiar da manhã, cavalgou, e fóra da villa, n’uma esplanada de monte, chamado o «Arcabuzado», parou a examinar um mau retabulo, em que um pincel de 1811 contava á posteridade o caso triste do espingardeamento de um soldado desertor, cinco minutos antes de chegar de Lisboa o pae do padecente com o perdão da junta governativa. Este infausto successo contou-lh’o, em frente do painel, um mancebo, que desde a hospedaria a seguira, sobre o seu irrequieto cavallo. Não ousaria elle intrometter-se a dar explicações, se a franceza, por gesto convidativo, o não animasse a sair-se d’aquelle spasmo mudo, que as mulheres formosas incutem nos provincianos, gente, pelo commum, contemplativa até ao extasis.

Concluida a historia do painel, o moço alinhou o cavallo com o de Margarida, quanto a estrada o permittia, e foi dizendo quem era e para onde jornadeava. Modestamente omittiu na noticia da sua pessoa que era um fidalgo do Valle d’Aguiar, senhor do solar e castello d’aquelle nome, descendente por varonia de Duarte de Almeida, o celebrado alferes da bandeira, que, a defendel-a com mãos e dentes, perdêra os dentes e as mãos na batalha de Tóro, em 1476. Fallou, porém, no seu castello, que a franceza traduziu château, «casa-campestre», coisa de nenhuma importancia archeologica. Ricardo de Almeida ignorava a lingua franceza, o que vinha a ser uma falta para dar do seu castello solarengo uma cabal idéa.

Margarida perguntou-lhe se conhecia Nicoláo de Mesquita.