Não deu tempo ás reflexões d’elle nem ás nossas a repetida pergunta da franceza:

—Que quer de mim?

—Que domine esse feroz orgulho, que a perde!

—Bella resposta, senhor Nicoláo! replicou Margarida, sacudindo as rédeas com um tremor nervoso da mão. Deixar meu marido foi uma virtude do coração, como o cavalheiro lhe chamava; a virtuosa não se perdeu então; perde-se agora porque é orgulhosa até á ferocidade... é isso? que escarneo, senhor Mesquita!...

Susteve-se, esperando qualquer resposta. As desgraçadas, n’estes lances, usam uma logica irrespondivel. Nicoláo tinha a lingua preza—consintam a figura—por dois dedos da sua prima Beatriz. Expressão compadecida não vingava nenhuma com que applacasse o irritamento de Margarida. Assim que no animo lhe pungia a commiseração, ahi estavam logo os dois dedos de Beatriz a entalarem-lhe na lingua o termo brando, a claridade mesmo da mentira.

A franceza, sobre-excitada pelo silencio significativo do morgado da Palmeira, disse com energia e sem lagrimas:

—Eu, senhor, não vim queixar-me da sua ingratidão. Bem sabe que o deixei apertar-me cinco annos a corda na garganta, sem soltar um gemido. A sua consideração por mim morreu, quando a sociedade me desconsiderou. O senhor, desde o momento em que deixou de vêr ao meu lado o estimulo do seu crime, não soube que fazer aos loiros da victoria. Eu, ao lado de meu marido, era uma mulher disputada pelo amor d’elle; escondida ás pedradas do mundo, perdi o valor que me davam os respeitos sociaes. As pedradas mais certeiras e dolorosas eram as suas, senhor Nicoláo. E não me queixei, nem isto é queixar-me. Da vilania é que eu me dou por affrontada. Deixou-me no Porto com vil astucia, e nem por dignidade propria sustentou a mascara. Era a vida de sua mãe que repellia a mulher perdida da honesta casa da Palmeira: morreu sua mãe, e o senhor, aturdido pela dôr da orphandade, não poude dispôr da cabeça para me dar parte do seu lucto...

—Não admitto remoques sobre objectos tão serios! interrompeu iracundo o morgado.

—O senhor não póde considerar-se um objecto serio! acudiu de prompto a franceza. Ridicula é a sua aleivosia, senhor Nicoláo! Ridiculo, se não quer que diga infame, é o seu silencio de vinte dias ás minhas cartas! Ridiculo, é esse falso pundonor com que vem em defeza da honestidade dos seus lares! Ridiculo é o seu amor dos quarenta annos á candida sobrinha de Chaves que...

Nicoláo cresceu sobre os estribos, levou a mão direita á testa escaldante, e baforou fumaradas de rancor. Abrasava-o dentro o sarcasmo do amor dos quarenta annos. Tortura mais lacerante nem a inquisição poderia invental-a para uso de mulheres inexoraveis como Margarida! Teve-lhe medo ella quando o viu assim roxo e vulcanico a chammejar pelos olhos, inteiriçado sobre o sellim, pavoroso, e ainda ridiculo, no rigor da palavra, e no entender da franceza.