—Deixe-me! bradou o morgado.
—Deixo, tornou ella. Está o senhor livre de mim; a Providencia é que não o deixará... Ver-nos-hemos!
E saiu da saleta, desceu ao pateo da estalagem, e ordenou ao arrieiro, que tirasse o cavallo da estrebaria. Entretanto pagou as despezas da hospedagem, e sentou-se n’um banco de pedra, com os braços cruzados sobre o seio, e a face pendida sobre elles.
Nicoláo de Mesquita desceu pouco depois e reconheceu um criado de Beatriz, que saía apressado do pateo. Sobresaltou-se, cuidando que era espionado, e surprehendido em flagrante de mentira e perfidia. Passou por deante de Margarida, como se não a visse, e saiu a rua procurando o criado, que não viu. Voltou ao pateo, já quando a franceza cavalgava. Quedou-se a contemplal-a estupidamente, n’um indescriptivel spasmo de brutificação. Margarida passou rente com elle, estalejando o chicote na anca da cavalgadura. Tinha elle saido da villa, quando Nicoláo tirou fóra o cavallo, e picou á redea solta no seguimento de Margarida. Não saberia dizer elle que intento o impulsava. Chegou de par com ella, colheu as bridas de impeto, e perguntou:
—Onde vaes, desgraçada?
—Á sorte! respondeu a franceza.
—Pára e reflexiona, Margarida!...
A franceza parou, sorriu sardonicamente e disse:
—Bem! Aqui estou. Que quer de mim?
A pergunta conturbou o morgado. Bruxuleava uma luzinha de piedade ainda n’aquelle animo afflicto. Era verdadeira afflicção a d’elle! A pergunta demandava uma só resposta digna, e consolativa. Essa nem já insidiosamente podia elle dal-a. A sobranceria de Margarida rebatia algum expediente compassivo. Se ella chorasse, ganharia temporariamente uns exteriores de estima, o supremo sacrificio praticavel pelo homem, que faz obedecer á delicadeza o fastio; sacrificio de que vivem resignadas, senão felizes, muitas mulheres, as virtuosas principalmente.