—É o riso da dignidade! respondeu a franceza, sem se desmentir na postura.

—A dignidade de madame Froment! redarguiu elle, espirando um frouxo de riso sarcastico.

—Condemna-se, insultando-me, homem sem alma! replicou Margarida. Madame Froment era uma digna esposa até ao dia em que seu marido foi deshonrado por quem elle recebêra em sua casa.

—Quem a ouvisse cuidaria que eu me servi do punhal de Tarquinio!

—Foi mais cynico, e vilão, e covarde, senhor Nicoláo! As suas armas foram mais perfidas.

—Mas Lucrecia não se matou!...

—Não! bramiu ella furiosa, não se mata, porque é necessario que o senhor veja como eu me debato e agoniso no lodaçal em que me deixa. Havemos de expiar ambos, ouviu, senhor Mesquita? Havemos de nos espedaçar um ao outro! Eu acceito a vida com os horrores todos, que me esperam... acceito-a com a condição de o vêr castigado.

Nicoláo riu-se e sahiu do quarto, atirando com as melenas lustrosas de suor para a nuca.

Seguiu-o, instantes depois, Margarida, e disse-lhe serenamente:

—Venho responder ao seu riso.