Acercou-se de Margarida e disse-lhe com brandura:

—Não chores. Tens no mundo um amigo, Margarida!

A franceza levantou a face brilhante de lagrimas e escarlate febril. Fixou a vista immovel n’um ponto da parede fronteira, e permaneceu silenciosa largo espaço.

O morgado, observando-a assim, fez um tregeito de impaciencia. Era o fastio, a luctar com a commiseração, e a dominal-a.

A sombra de Beatriz passou entre ambos. Seguiram-n’a os olhos d’alma de Nicoláo. Os da face ficaram postos em Margarida; mas sómente viam n’ella o estorvo, a miseria repulsiva, as lagrimas accusadoras. Duas idéas se travaram a repellões no animo do morgado: romper violenta e definitivamente com a franceza ou enganal-a com blandicias e promessas. Venceu o mais vil dos expedientes.

O maximo sacrificio, que Nicoláo podia fazer á sua paixão pela prima, era compôr o gesto de carinhos; modelar a voz pelo tom vehemente do coração ingrato, mas arrependido; repetir as phrases que seis annos se não repetiram aos ouvidos da franceza.

N’este intuito, ajoelhando deante de Margarida, irrompeu n’uma lamuria destoada da accentuação da verdade, um declamar de actor pessimo, uma coisa que, na consciencia propriamente do declamador, o devia de estar envilecendo!

Margarida foi cruel. Riu-se! castigou-o atrozmente envergonhando-o em rosto, quanto elle o estava no seu intimo senso.

Nicoláo de Mesquita ergueu-se de salto, e sentiu ao correr dos braços um prurido nervoso, umas fervuras de sangue, que lhe recurvavam os dedos; era a convulsiva ancia de esganar a mulher que o comprehendera e escarnecia.

—Que infame riso é esse? exclamou o morgado cavamente, chispando áscuas dos olhos e beiços.