—Honestamente vivia eu em casa de meu marido, senhor Nicoláo de Mesquita! O senhor prégou-me a desmoralisação, e agora está-me doutrinando a honestidade! Que escarneo! O seu dinheiro não pode rehabilitar a mulher que a sua perversa indole abysmou! O senhor faz mulheres perdidas, não refaz honestas!

—Pois bem!

—Pois bem o que?

—Faça o que quizer.

Margarida fitou-o arquejante de colera, e levou com impetuoso frenesi as mãos aos olhos, murmurando estas palavras, que elle não ouviu:

—Covarde e infame!

Nicoláo erguera-se, saira á saleta contigua, aspirando haustos de ar, e baforando ruidosamente as expirações fumegantes. A franceza atirára-se ao leito, afogada de soluços, e clamando:

—Estás vingado, Ernesto, estás vingado, meu infeliz marido!

Nicoláo ouvira isto, e estorcia em desespero os dedos de ambas as mãos enclavinhadas sobre o peito.

Encostou-se ao batente da porta do quarto, e contemplou-a. Teve dó. Lembrou-se do que fôra aquella mulher em casa de seu marido. O contentamento, a estima publica, os regalos, o respeito de amigos, a consideração das mulheres honestas, o acanhamento com que a tratavam as deshonestas, o orgulho e paixão do esposo. Lembrou-lhe tudo, vendo-a assim soluçante, a confessar a sua culpa, e a sentir na consciencia o travor do calix expiatorio. E, por sobre tudo isto, o lembrar-se Nicoláo da sua deshonra d’elle! aquellas lagrimas a cairem-lhe no coração! e o terrivel irremediavel da desgraça de tres victimas, que elle fizera, contando-se pela mais atormentada das tres!...