—Acceito muito agradecida—respondeu Margarida, estendendo o braço á mão convulsa do fidalgo. Ainda mesmo que sobejassem hospedarias na estrada, eu acceitaria a sua hospedagem, senhor Ricardo.

O mancebo cavalgou, e deu o passo a Margarida no estreito caminho que levava ao Pontido.

Iam ambos concentrados: ella, no enlevo da consideração que recebia; elle, no seu amor. Devemos cuidar assim da franceza; porque não ha contentamento comparavel ao da mulher desestimada da sociedade, quando se lhe depara prova de respeito, urbanidade sem mescla de amor aviltante. Parecia-lhe á dama que estava no tempo em que a respeitavam, e talvez a amavam os amigos da sua familia, sem exclusão dos amigos de seu marido, facto que nos escandalisa muito a nós, e medianamente agastaria a esposa de Ernesto Froment.

Quanto ao enlevo amoroso de Ricardo de Almeida, havemos de inferil-o naturalmente de um successo, que prende com esta historia. Fôra o caso que elle, por veredas transversaes, no dia anterior, chegara, primeiro que Margarida, a Villa Pouca. Alojára-se na unica estalagem da terra, e no quarto immediato ao que devia occupar a franceza. Ouvira-a fallar de um portador que fosse de noite a Chaves. Desvelára a noite, espiando a resposta. Dera tento da chegada de seu primo Nicoláo. Ouvira o dialogo na alcôva e na saleta. Até os soluços da franceza ouvira, quando o morgado, fóra do quarto, expedia uns sons roucos da colera que o afogava. Assim que Margarida desceu ao pateo, Ricardo saira pelo quintalejo da estalagem, e fôra montar o cavallo, que tinha acautelado de suspeitas em outra casa. Desgarrando da estrada, voltou ao Pontido, e subiu á crista das fragas com o oculo, tremendo que a reconciliação se fizesse entre Nicoláo e Margarida. Ora isto, se não era amor, e amor á antiga, coevo talvez do castello senhorial do rico homem, não sei dar-lhe nome, a não querer o leitor que isto fossem ciladas do demonio, em conformidade com as interpretações de santos e doutissimos sujeitos. Quer anjo, quer demonio que lhe instillasse no peito o nectar ou a peçonha, o exacto é que Ricardo de Almeida apresentou a suas venerandas tias D. Margarida Froment, sem dizer quem era, d’onde vinha, e para onde ia. Caso unico no solar dos Almeidas.

Perguntava D. Simôa ao sobrinho, em quanto D. Sancha entretinha a hospeda suspeita:

—Mas onde conheceste, menino, esta dama? Como veio ella parar aqui lá d’esses mundos de Christo?

—Sei que é um anjo: viria do ceu!—respondeu Ricardo.

—Do ceu?!... Vê lá bem, menino! Olha que teu tio avô, o senhor bispo de Coimbra, dizia que as mulheres assim galantes eram mensageiras do inimigo.

—Ora minha tia...—volvia o moço afagando-a.—Receba sem escrupulos a pobre senhora, que é tão galante como desgraçada.

—Então que tem ella, menino?—instava D. Simôa com malicia.