Foi-lhe immensa consolação este desabafo da vaidade!
IV
Margarida, na volta de Villa Pouca, reparou no castello, e pensou no descendente dos ricos-homens de Aguiar, dizendo em sua consciencia: «Amal-o-hia eu, se podesse... O coração da mulher não se engana... Aquelle moço amava-me hontem...»
Custa a crêr o soliloquio!
Ainda não ha meia hora que ella viu, ennovelados em poeira, o cavalleiro e o cavallo sumirem-se para sempre, e já tão cedo se preoccupa do affecto inspirado a um estranho, que hontem vira! Que coração e juizo tem esta creatura! É um coração e juizo exoticos: coisas de França; que em Portugal—terra onde mais sinceramente e ajuizadamente se ama e morre d’amor—nenhuma senhora, em caso similhante, faria monologos d’aquelles.
Ao mesmo tempo, Ricardo de Almeida, empinado sobre uma pinha de rochas, contiguas ao castello apontava um oculo á estrada que descia de Villa Pouca, e monologava tambem: «É ella... e vem sósinha...»
O cavallo estava sellado, ao sopé dos rochedos. Ricardo desceu do miradouro, cavalgou, e foi sair ao caminho na encruzilhada onde se despedira. A franceza reconhecera-o a galopar na clareira de uma agra. Fez-se um brilhante dia no seu espirito! Ia alegre como bem póde ser não fosse, ainda que arrancasse o homem amado ás presas da menina de Chaves. A alvorada de um amor novo é uma aurora de junho perfumada de flores, gorgeada de passarinhos, sonora de murmurios no coração ennoitecido, e regelado pela borrasca de uma paixão infeliz. Era uma alegria que a vingava! Na infancia do seu amor de donzella, nenhuma hora sentira de tão excitante e alvoroçada felicidade!
Ricardo apeou, atirou as rédeas á mão do lacaio, e adeantou-se ao encontro da franceza, dizendo com a voz tremula do sobresalto interior:
—É tarde para vossa excellencia ir pernoitar a Villa Real. No espaço de tres grandes leguas não encontra pousada. Venho offerecer-lhe a minha casa, onde tenho minhas tias para a receberem.