Partiu um criado com a carta para o Vidago, ou para onde Nicoláo de Mesquita estivesse. Do Vidago passou a Chaves, a procural-o em casa de Martinho Xavier. Foi entregue a carta ao morgado de Palmeira, a tempo que elle estava amollentando os asperrimos ciumes de Beatriz, informada do encontro em Villa Pouca, pelo espião que mandára. Nicoláo tinha inventado não sabemos que romances á conta da mulher, que o criado de Beatriz affirmára ser linda como as estrellas e mocetona de uma vez, modo seu de exprimir a maxima perfectibilidade da belleza mulheril. A prima repellia desabridamente as humilimas explicações, que reviam absurdeza, e deficiencia de estudo previo. Chegou, porém, a carta, com a indicação de onde vinha.
—Que me quererão estas serêsmas do Pontido? disse Nicoláo.
Leu, e no decurso das duas primeiras paginas fradescas, resadas em voz alta, interrompeu-se exclamando:
—Que vem a ser isto?!
Relanceou os olhos sobre a terceira pagina, e viu as palavras franceza Margarida. Mudou de côr, e leu d’ahi em diante mentalmente. Beatriz desconfiou, e foi, irreflectidamente, com liberdade de noiva, e indelicadeza de menina que não ganhou no collegio premios de civilidade, espreitar o dizer da carta. Nicoláo furtou-se á curiosidade e augmentou a suspeita. A menina saiu da sala com arrebatamento, e foi dizer ao pai:
—Já não quero casar com o tio Nicoláo. (Já era tio!)
—Porque, menina?!
—Porque sim... É um infiel!
—Ora, creança!... Saibamos isso por miudos.
Beatriz contou o encontro com uma mulher em Villa Pouca, e o recebimento da carta, que elle escondêra, depois de ter lido uma porção d’ella a dizer mal das mulheres.