PREFACIO
Em quanto á influencia do romance nos costumes, estou mais que muito desconfiado de que o romance não morigera nem desmoralisa.
Porém, admittida a ponderação que lhe alvidram os exhortadores dos pais de familia, não sei decidir como se ha de escrever o romance fautor da sã moral. São dois os expedientes: levar os personagens viciosos ao despenhadeiro; ou crear anjos n’um paraiso sem serpente.
Na primeira especie, mostra-se a lucta de virtude e crime: natural e concludentemente triumpha a virtude. É o costume com sacrificio, ás vezes, da verosimilhança.
Na segunda fórma de romancear, a virtude recebe as ovações sem batalha. O romancista põe peito á reformação das obras de Deus, e corrige-as. Quando os seus personagens se avisinham de algum sujo aguaçal, em que é uso a gente commum salpicar as botas, atam-lhe asas de serafins, e largam-lhe trella por esse azul dos ceus dentro, até lhes vir a geito poisal-os em alegretes de flores.
São estes os romances que moralisam, ou os outros? É a minha duvida.
Convém mostrar as repulsões do crime lá em baixo, onde a providencia social lhes cavou a paragem; ou é melhor conduzir, por entre hortos amenissimos, os nossos personagens engrinaldados, e mettel-os no ceu finalmente?
Um homem de bem, proprietario de um dos primeiros jornaes d’este paiz, costuma editar os meus romances, com a previa clausula de não serem historias de crimes, que toquem directa ou indirectamente com a probidade da vida conjugal, ou revelem desdouros da honra domestica.
Ha poucos dias, tivémos esta pratica:
—Querem os pais de familias que suas filhas ignorem a corrupção, que lavra nos pantanos da sociedade—observou-me o meu amigo.