—Os pais de familia, contestei, não conseguem isso, em quanto não acharem o caminho da lua, onde presumo que não ha costumes, nem romances. E será preciso que se mudem para lá com as filhas, menores de dez annos, e não levem as mães, porque as mães, maximamente virtuosas, sempre teem que contar ás filhas a historia escandalosa das mães culpadas.

—Mas não se ganha moralisação para os espiritos brandos e virginaes das leitoras, em dar-lhes novellas de adulterios—redarguiu o cavalheiro.

—Ganha, quando se lhes mostram os infortunios acapellados em volta da mulher que se deshonra. Ganha, porque as filhas do pai acautellado sabem que as ha, conhecem-nas, e apertam a mão das deshonradas; concorrem aos salões com ellas; sabem o nome e a culpa do homem que as requesta; observam-lhes uns exteriores de felicidade; e espantam-se de as verem ostensivamente satisfeitas, e, de mais a mais, acatadas com uma urbanidade, que as não estrema das honestas. Então é que o romance ganha muito, levando ao conhecimento das donzellas, até certo ponto innocentes, que o desdouro, cujo horror não as apavorou nos salões, tem angustias secretas, e infamias estrondosas. Parece-me isto, meu amigo.

—Acho-lhe rasão—obtemporou o honrado e illustrado editor dos meus livros—mas que quer, se os pais de familia intendem que suas filhas desconhecem a existencia de certos crimes? E desadoram romances que revolvam essas sentinas hediondas?

Aqui ficou a contenda amigavel. Não procurei pai de familias nenhum para argumentarmos. Fiquei-me a scismar se devia queimar este volume que estava escripto, no intuito de mostrar o squalor de uma chaga social, sem a minima pretenção de lhe pôr o cauterio. Não queimei; mas protesto extrahil-o da circulação, se um dia me persuadir de todo em todo que esta coisa de romances, escriptos assim, peoram a humanidade, e alvorotam a quietação dos pais de familia.

I

Era justa e plausivel a admiração que infundia no espirito dos portuenses, nada espantadiços de mulheres formosas, uma franceza que, poucas vezes, se via no Porto, ahi pelos annos 1834 até 1839. Sabia-se que esta dama vivia n’uma quinta dos arrabaldes da cidade, e para ali viera com um fidalgo portuguez, regressado da emigração em 1835, sujeito pacifico, estranho ás victorias da liberdade, e tambem estranho aos reposteiros das secretarias. Era Nicoláo de Mesquita.

Da procedencia da franceza é que ninguem sabia. Geralmente duvidava-se da honestidade de tal contubernio; isto, porém, não implicava ao quasi respeito com que os galãs mais audaciosos da cidade eterna encaravam a gentil amazona, ao lado do cavalheiro grave, sombrio, e sympathico. Outras vezes, a estrangeira entrava no Porto sósinha, com um lacaio; apeiava no hotel do Pêxe,[1] saía a provêr-se de objectos de luxo nas lojas de modas, seguida do criado, e voltava ás suas flôres e bosques, que deviam de alegrar-se, vendo chegar a sua bella e solitaria rainha.

O cavalheiro conhecia poucas pessoas no Porto, e tão friamente as praticava, que ninguem ousava perguntar-lhe miudezas de sua vida particular.