—Pois bem, Nicoláo... remediemos o remediavel. Se a presença de minha filha te atormenta, eu levo-a para minha casa, que tambem é tua e d’ella. Se o amor tornar, vae buscal-a; se, sem Beatriz, viveres mais tranquillo, ella que fique em Chaves.

—Não!... atalhou o morgado.—A minha desgraça não se remedeia assim, nem d’outro modo. É um anathema! e um calix intransitivo. Hei de bebel-o trago a trago!...

—Santo Deus!—acudiu Martinho Xavier—que segredo é esse da tua vida? Se eu te visse na sociedade, cuidaria que te apaixonaste, primo! E então appellaria do teu coração para a tua honra.

—E se eu não tivesse honra!...—exclamou Nicoláo, e saiu impetuosamente da sala.

Martinho perguntou á filha:

—Teu marido recebe cartas suspeitas?

—Não, que eu saiba, meu pae. Recebe jornaes, e raras vezes tem cartas de França.

—E essas cartas sabes o que ellas conteem?

—Sei, porque são de um portuguez, e nada dizem de suspeito. Só, aqui ha tempos, li uma, que falava n’uma Margarida, e entendi que era a franceza do Ricardo de Almeida. Vim a saber que ella era casada, porque diz assim, pouco mais ou menos: «o marido de Margarida está gordo e devasso; e desforra-se.» Não percebi isto, nem me importou. Perguntei ao primo se a tal franceza era casada, e elle respondeu-me bruscamente que não sabia, nem eu me devia importar com as cartas que elle recebia. Porque me pergunta o pae se elle recebe cartas suspeitas?

—Nada, filha.