—Quem te deu isto? perguntou a franceza.

—Um criado do hotel inglez.

Margarida leu as vinte laudas; quando a vista se lhe turvava, depunha a carta e enxugava os olhos. Finda a leitura, escreveu na margem da ultima folha: Esta carta é o prefacio da minha vingança. Lacrou-a e devolveu-a pelo jockey, dizendo:

—Se trouxeres outra, envio-te com ella a teu amo.

Assim que Ricardo entrou, Margarida foi cariciosamente aos braços d’elle, e disse:

—Vamos. Tens medo de fraquear, Margarida?

—Não. Se eu podesse fraquear, a mudança de terra seria debilitar-me, em vez de robustecer-me.

Na tarde d’este dia, Nicoláo de Mesquita viu passar em carro Margarida e Ricardo, caminho do Porto. Esperou-os no regresso até noite alta. Era uma cabeça perdida, a esta hora, a do miserando homem! Sabia que tinha duas pistolas entre mãos, e que sobre sua cabeça ia estalar a maior e ultima tempestade. O alvor da manhã bruniu-lhe o rosto livido de um verniz embaciado de cadaver. Ao raiar do sol foi para casa, que Margarida e Ricardo não voltaram.

Ás dez horas, estava febril no leito. Na sala do hotel, proximo do seu quarto, conversavam algumas vozes. Eram cavalheiros da provincia. Dizia um:

—O Ricardo e a franceza embarcaram para Lisboa ás nove horas.