—Minha mulher que tem? perguntou Nicoláo com a respiração anciada.

—Não a vi. Encarregou-me o tio Martinho de procurar o senhor Mesquita, e dizer-lhe que a prima Beatriz estava em perigo. Quiz desempenhar o recado, e vim dar-lh’o ao Porto.

—Eu parto sem demora. O senhor Raphael Garção vae dar-me sua palavra de honra de occultar de minha prima que me encontrou aqui?—disse solemnemente Nicoláo.

—É escusada a solemnidade do juramento, senhor Mesquita.

—Dirá que me foi procurar á quinta da Murça.

—O que vossa excellencia quizer que eu diga.

—E, se ella tiver morrido, meu Deus! exclamou o morgado. Pois o ceu ha de castigar-me assim, por eu não saber esconder n’este perdido coração aquelle anjo! Oh!... que infernaes abysmos eu tenho cavado em redor de mim!... Hei de afinal despedaçar-me, como aquella maldita vaticinou!... Alli fóra, senhor Raphael, contaram-lhe o meu opprobrio! Não sabe, não sabe que aviltada alma é a minha!... Eu vim aqui por amor de uma mulher perdida, que passeia orgulhosamente a sua devassidão á luz do sol. É uma condemnação de que não póde salvar-me a mulher sem nodoa, a doce e celestial creatura, que eu amo tanto!... Deus não m’a ha de levar! Tão nova e tão linda!... Como eu a adoro, senhor Garção!... Creia que eu amo minha mulher com o ardentissimo fogo de um remorso, que me está sendo a tortura dos reprobos!...

Raphael ouvia-o espantado. A gesticulação e o cavernoso do clamor impressionavam; mas Raphael era futil de mais para ponderar a ingente dôr, que se desentranhava em termos de tragedia velha.

O leitor naturalmente faz o que não fez o frivolo morgado de Fayões; é capaz de rir-se, e perguntar-me que especie de doidice é a de Nicoláo de Mesquita.

É uma especie de doidice, que se chama a razão humana. Á gente de juizo pode offendel-a a resposta paradoxal; mas os philosophos, que tambem são uma especialidade de doidos, hão de admittir-m’a em sã e escorreita dialectica.