Observou o morgado um ar de resentimento assim no rosto da esposa como no de Martinho Xavier. Á cordealidade dos abraços responderam-lhe glacialmente, e ás perguntas sobre a enfermidade de Beatriz davam umas respostas ironicas e enfastiadas.
Raphael Garção, no bom intento de conciliar os animos, contou que fôra á quinta de Murça procurar o primo, e o encontrára doente, com o medico á cabeceira; e ajuntou que por pouco o não matára com a noticia da perigosa enfermidade da prima Beatriz.
O mentiroso radiou uma luz nova nos olhos de Martinho Xavier, e entreabriu nos labios de Beatriz um sorriso de indulto. Nicoláo, assim que o lanço se lhe ageitou, apertou-lhe a mão e disse:
—Graças, meu bom amigo!
—Mentir como o diabo, diz Voltaire—respondeu o de Fayões.—A verdade póde ser a ventura dos predestinados; porém nós, miseros peccadores, carecemos de mentir a torto e a direito, primo Mesquita.
—Sem deshonra propria, nem damno alheio—acrescentou o do Vidago.
—Ah! vossa excellencia quer moralisar-me? O lobo despe a pelle, e enverga a sotaina? Primo Nicoláo, quem tem uma mulher como Beatriz...
—Cale-se que podem ouvir-nos...
—Deixe estar que eu hei de castigar o Ricardo. Quem lhe ha de empalmar a franceza hei de ser eu. Assim que me constar que ella está no Porto, vou lá: quero inscrever o nome de Margarida Froment n’uma casa em branco, que deixei entre a Aldonza Lourenzo do pandeiro, e uma primeira tragica do theatro de Amarante. Orçam na moralidade.
Arrugou-se a fronte de Nicoláo de Mesquita. Pezara-lhe o ultrage: é que elle vira n’aquelle momento Margarida Froment, encostada ao braço de seu marido, oito annos antes, repartindo recursos e consolações pelos operarios da sua fabrica de Leão, enfermos, e de mãos postas a orarem pelo anjo da caridade.