Esbordava-lhe o coração de lagrimas, quando se arredou friamente do sarcastico mancebo. Foi intermittencia momentanea.
Martinho Xavier abriu as suas salas, n’aquella noite, á sociedade flaviense. Beatriz dançou com seu marido, como ha vinte annos se fazia na provincia sem irrisão. Raphael distinguiu-se no solo inglez, e aprimorou-se n’uma gavota com sua prima. A gentil senhora respirava a peito cheio o ar tepido e balsamico das salas. O setim da cutis retingiu-se-lhe. O marido parecia-lhe outro homem e as flores das jarras figuravam-lhe as primeiras da sua nova primavera. Dava ares de creança; e o marido consolava-se de vêl-a assim.
Seguiram-se outros bailes, e Nicoláo de boa vontade em todos. Balbuciou Beatriz o desejo de residir em Chaves. Em poucos dias, se passaram as preciosas decorações do palacio de Palmeira para outro de Chaves. Martinho Xavier estava em permanentes acções de graças ao Senhor dos Milagres! Via a filha feliz e o genro transfigurado.
No viver intimo, a mudança da indole de Beatriz fôra menos sensivel do que devêra presumir-se. Aquelle temperamento, fóra da quentura dos salões esfriava. Recebia os affagos do marido, como se elle meramente fosse o tio Nicoláo. Ella mesma não sabia dar-se conta da atonia da sua alma. Parecia-lhe que o tinha amado um anno antes, sem dar tento de uns cabellos brancos, que lhe listravam o bigode, nem da calvicie incipiente que lhe affeiava um tanto a cabeça. Calculava, computava os annos, e chegava á exactissima deducção de uma coisa que a mortificava: e era que o marido havia de ter cincoenta e dois annos, quando ella tivesse trinta. Nicoláo era intuitivamente advertido d’estas secretas meditações. Revelava-lhes a razão esclarecida; mas, assim mesmo, confiava bastante de si para deixar-se avassallar de uma suspeita indecorosa a sua mulher. Erro palmar dos homens, que foram muito queridos até aos trinta annos, e se presumem encouraçados e invulneraveis ás injurias do tempo e ás desgraças, que não pouparam propriamente os deuses olympicos, e outros mais importantes deuses terrestres.
Chegado o verão d’aquelle anno de 1841, o morgado da Palmeira foi passar a sasão estiva no seu solar, convidando a acompanhal-o algumas damas e cavalheiros parentes, sem olvidar-se de Raphael Garção, por quem cobrára grande estima. Se alguma hora lhe sombreou o espirito a lembrança ingrata de que fôra Raphael o espertador do coração de sua mulher, acudiam-lhe á memoria as palavras ouvidas no hotel da Foz com referencia ao puro e respeitoso amor que lhe sagrára. As suspeitas fugiam logo envergonhadas, e a confiança restabelecia-se, cimentada nas virtudes de Beatriz, e nas mil diversões amorosas do morgado de Fayões.
Por outro prisma via as coisas Martinho Xavier, sem embargo do conceito que formava da filha. Raphael é que para elle significava o supremo patife das duas provincias do norte, juizo, a meu vêr, moderado, attentos os adulterios, seducções e barganterias femeaes, que corriam por sua conta. Assim, pois, era certo surgir, como por encanto, Martinho Xavier á beira da filha, logo que Raphael Garção se avisinhava d’ella sem testemunhas de acrisolada probidade. Este resguardo não o revelava elle ao genro; porém, visando ao scôpo com a pontaria n’outro alvo, desfazia nas qualidades do sobrinho, e contava os adulterios com taes visagens, que um marido cioso, na posição de Nicoláo, teria desde logo horror do seu proprio infortunio, enforcaria a mulher.
O morgado ouvia as tenebrosas historias, e dizia:
—Ha-de ser a quarta parte do que diz o mundo, primo Martinho. Não sejamos vulgo. Eu, antes de emigrar, gosei fama de ter um harem na minha quinta da Ribeira d’Oura, e de ter obrigado cinco paes de familia a enclausurarem as filhas, e de ser a causa funesta de alguns maridos aferrolharem as esposas infidas na casa do Ferro[2]. Pois, meu amigo, sob minha palavra de cavalheiro te assevero, que antes de emigrar, apenas tinha galanteado uma tecedeira, a qual tecedeira galanteava ao mesmo tempo o meu padre capellão, e veiu por fim a casar com o meu lacaio. Eu era isto, quando tu e os outros hypocritas—disse elle sorrindo—me chamaveis o terror das familias. Pois argumenta de mim para Raphael Garção. Que sabemos nós positivamente? O que elle nos conta, com a fatuidade propria da sua edade. As atoardas que correm, quem as verifica? Os maridos infelizes? Que é d’elles?
—Calam-se—respondeu Martinho Xavier.
—Isso não é nas nossas montanhas, primo. Os maridos ultrajados, quando se calam, fazem fallar a bocca das clavinas.