A discrição do pae de Beatriz rematava aqui o dialogo. Nicoláo permanecia alguns minutos pensativo, e ia de um relanço insuspeito devassar o coração de sua mulher, e espiar os olhos do hospede. Encontrava-os sempre distraidos um do outro, ou conversando as mais innocentes praticas, na presença de Martinho.

N’um d’aquelles dias, ergueram-se alegres vozes subitamente na casa de Palmeira. Foi por que, findo o almoço, Nicoláo de Mesquita, tartamudeando de commovido, annunciou que sua esposa sentia os primeiros indicios da maternidade. Foram as senhoras beijal-a nos braços do pae, e os cavalheiros brindaram clamorosamente o vigesimo quinto senhor de Palmeira. Ao terceiro dia, ao setimo, e ao decimo quinto, depois da nova, celebraram o jubilo com trez bailes, e trez jantares, e trez ceias. Concorreram os poetas de Villa Real, de Chaves, de toda a terra em que Deus plantára um poeta, com capacidade de fazer um soneto.

Beatriz era infantilmente amimada por seu marido, que chorava alvoraçado pela deliciosa expectação da paternidade! Andava elle a inventar-lhe incommodos, para ter o goso de a desvelar com branduras e melindres, que excediam a seriedade de um marido. Receava que a chilreada dos passaros lhe turvasse o somno matutino, e mandava á noite espancar a passarinhada das copas dos chorões. Cuidou que o aroma das flores damnificasse á geração e mandou cavar os alegretes e taboleiros sobpostos ás janellas do seu quarto. Com estas competiam outras crendices não menos irrisorias.

Assim que as chuvas de outubro ameaçaram, cuidou-se na mudança para Chaves.

Martinho Xavier contrastava a alegria de todos. Definhava-se a olhos visto, e respondia com estranho aspeito aos cuidados de Beatriz, e com rancoroso gesto ás delicadas attenções de Raphael.

Fôra o caso que elle, n’uma ante-manhã, ouvira abrir subtilmente uma porta envidraçada do quarto de Raphael, e o vira passar ao jardim, e sumir-se entre uns maciços de murta, e voltar, instantes depois, a fechar-se no quarto. Isto preoccupou-o em dolorosas conjecturas.

Assim que foi dia claro, desceu Martinho Xavier ao jardim, fez umas voltas na visinhança dos maciços, e emboscou-se n’elles, sem ser visto. Examinou os recantos, esquadrinhando algum vestigio. Dois vasos de porcellana ladeavam a entrada de uma gruta, comada de maracujás e baunilhas. Meditou, e desistiu de atinar com o intento de Raphael. Saiu, reflectiu ainda, e retrocedeu. Levantou um dos vasos, e viu que a terra secca, rebordando-lhe o fundo, indicava que não fôra bulido. Examinou o outro, e descobriu claros indicios de ter sido deslocado e, na terra em que elle assentava, o signal de ter alli estado um corpo mais liso, pois que o restante da terra estava crespo das saliencias do vaso. Inferiu que estivera alli uma carta. Assim se explica a maceração do rosto do fidalgo, e a severidade com que tratava a filha, e repulsão odienta com que afastava de si o sobrinho. Quinze dias se erguêra de noite, esperando a alvorada, e mallogrando-se-lhe as vigilias.

Ao anoitecer, porém, da vespera da mudança para Chaves, viu elle sair a filha apressada de entre os maciços, e responder ao marido que chamava de uma janella. Ao mesmo tempo descobriu a distancia, mal embrenhado n’um bosquete de amoreiras, o morgado de Fayões, olhando na direcção das murteiras. Correu Martinho Xavier, encoberto pela ramagem, a erguer o vaso suspeito. Encontrou uma carta. O papel caiu-lhe das mãos convulsas. Quiz sair; mas o tremor das pernas forçou-o a sentar-se no banco de cortiça, que adornava o interior do caramanchel. Cerrára-se a noite. Ouviu fremir a folhagem perto. Era Raphael Garção, que saltava por entre uns buxos defesos á observação da casa. Acercou-se o moço lestamente do vaso, levantou-o, palpou, esteve um instante suspenso, deixou-o baixar; mas, ao tempo que o pousava, sentiu uma pressão de ferro nas vertebras cervicaes, e bateu em cheio com o rosto no gradeamento do caramanchel. Reconheceu a mão que o sopesava, quando ouviu a palavra:

—Infame!

—Meu tio! murmurou elle—por quem é!...