—A tua morte, villão!—bradou suffocado o pae de Beatriz—a tua morte, villissimo lacaio, seria um escandalo, quando não, havia de arrancar-te a collada. Ouve-me bem, canalha! se esta noite não te despedires com qualquer pretexto, e o sol de ámanhã te vir n’esta casa, maldito seja eu, se te não matar. Entendeste-me bem, biltre?

—Cumprirei a sua vontade—respondeu Raphael.

—Ámanhã minha filha e meu genro vão para Chaves—tornou Martinho Xavier.—Se você não quizer ser azorragado debaixo dos olhos d’ella pelos meus criados, não passe mais debaixo das suas janellas. Martinho Xavier cumpre o que promette.

Saiu o pae de Beatriz, e encerrou-se no seu quarto. Abriu a carta, leu-a, e desafogou-se n’uma profunda expiração de contentamento.

Dizia assim a carta:

«Meu pae desconfia. A tristeza d’elle não póde ser motivada por outra coisa. O ar carrancudo com que me falla é mais uma prova. Reparo que tambem te encara com maus olhos. Sejamos cuidadosos, meu primo. Eu amo-te muito; mas não te posso sacrificar mais do que as minhas lagrimas. Deus me livre que o tio N. suspeite que eu te amo. Se tu vês que será util conviveres menos em minha casa, poupa-me algum grande dissabor. Tem sempre comtigo a certeza de que eu te quero muito, e que, se por agora não posso ser para ti mais que irmã, póde ser que um dia seja o mais que posso ser, e o que Deus não quiz que fossemos... tua esposa! Quem sabe, meu R!... Ha acontecimentos tão inesperados!... Lembra-te que tenho dezoito annos, e elle... Adeus, adeus, que o tio não me deixa uma hora sósinha. Vou ver se ainda posso levar a carta.»

Era rasoavel o contentamento de Martinho Xavier.

NOTAS DE RODAPÉ:

[2] O Ferro era por aquelle tempo, no Porto, um recolhimento, ou carcere, paradeiro das adulteras.

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