A senhora Froment, assim que os estranhos visitantes sairam, correu assustada a indagar a causa.
Nicoláo respondeu glacialmente:
—Depois de seis annos, um amigo de teu marido manda-me desafiar. Não me bato.
—Quem te desafia? É o chanceller? Não acceites, que elle é temivel!—acudiu ella.
O orgulhoso abespinhou-se, e disse severamente:
—Não ha homens temiveis para mim. Não acceito, porque é preciso muito coração para que um homem se bata por amor de qualquer mulher.
Pungente grosseria!
A franceza emudeceu transida. Bem o presentia ella; mas ainda lh’o não tinha ouvido. Emboscou-se entre as arvores a chorar. O orgulho!...
É certo que Nicoláo de Mesquita estava enfastiado, arrependido, e devorado de ancias de liberdade para retemperar o coração em amores novos. Pensava nas delicias de uma vida honesta; falsa virtude, que vem sempre com o enojo da mulher, que a sociedade honesta repelle. Seis annos era muito para ter sempre em florescencia affectos, que sairam de um tremedal. As idealidades do vicio são ephemeras; o orgulho póde fingil-as; mas, d’alma a dentro, não ha imperio que senhoreie o atroz pungimento do tedio. O sorriso é um tregeito vaidoso, que intenta escarnecer a censura do mundo, ou rebater a commiseração.
Nicoláo de Mesquita amára a mulher do amigo, que lhe aligeirára os annos do exilio. Infamia irritante em animo até d’aquelles que propriamente se sentem mordidos do remorso de um delicto similhante! Amára até ao absoluto despreso de si mesmo. Seguira-a de Lyão á Belgica. E d’aqui se fugira com ella para Portugal, em quanto o marido fôra a Paris pressurosamente a cuidar em negocios urgentes de sua industria.