—É o caso da menina de Basto?

—Que menina de Basto?! Essa historia não sei eu. O que eu sei é que chegou a Chaves um coronel de cavallaria, casado com uma senhora de fina educação, e vinte annos, ou coisa assim. A senhora deu-se mal com os ares de Chaves, e foi para a quinta de S. Lourenço, proxima a Fayões. Em menos de quinze dias, Raphael tomou conta da esposa do coronel, e foi para Hespanha. Pergunto eu agora a meu primo Nicoláo, se o mundo diz a vigesima parte da verdade?

—Aquillo é um lastimavel doido!...—observou o morgado com pena.—E ella parece-me mais doida ainda! Se elle bem soubesse que futuro o espera com as disciplinas da vingança!...

Beatriz ouvira a historia, com immobilidade de estatua. Á reflexão do marido fez um gesto forçado de assentimento. Assim que o filho vagiu no berço, correu para junto d’elle, chorou em ancias abafadas nas roupas do berço, que embalava para se lhe não ouvirem os soluços.

—Mentirá meu pae para me desvanecer? pensava ella comsigo, e, ao mesmo tempo, resava á Mãe de Jesus, pedindo-lhe o esquecimento do homem fatal.

Não mentira Martinho Xavier.

Raphael, assim que recebeu a ultima carta de Beatriz, chorou o tempo desbaratado n’uma esperança, além da qual se carregaram assentadoras borrascas. Doeu-se da força d’alma com que ella o despedia, e tirou a injudiciosa illação de que era mediocremente amado, porque as grandes paixões querem o estampido, e o sêvo das grandes desgraças. Nenhum dos seus romances fazia menção honrosa de heroes que se deixassem morrer da peçonha do ideal. Olhou o moço em si; viu-se com vinte e tres annos, futuro largo, vinte primaveras ainda a reflorirem-se. Enojou-se da inercia de seis mezes, em que deixara anazarem-se as suas ardentes faculdades. Saltou para o sellim do melhor cavallo, desfilou por montes e valles, visitou primas, que elle denominava o seu medalheiro de estudos numismaticos, restaurou galanteios antigos, antigos de seis mezes; e, n’esta andadura, foi dar á quinta de S. Lourenço, onde vivia um general reformado, com trez sobrinhas.

Apresentaram-lhe a hospeda, esposa do coronel, nem formosa nem sympathica, mas interessante pela melodia com que vibrava a escala chromatica em cada dezena de palavras que dizia: era lisboeta a dama. O galanteio começou alli, sem advertencia do general. Continuou nos quatorze dias subsequentes, cuidando o dono da casa que a namorada era uma de suas sobrinhas. O coronel, porque era marido, receava que o general se enganasse: revelou as suas duvidas, e o bravo do Bussaco respondeu que tinha em bom uso a espada com que espostejara um esquadrão de francezes. Em bom uso estava de certo a espada; virgem, talvez. Descançava o coronel na espada do seu amigo, quando a esposa lhe ia arrebatada no arção da sella do mais possante murzello de Raphael.

Aqui está a simples historia, que, posta em escriptura por mais aparada penna, faria chorar os leitores.

Muita gente ri-se d’isto. Outra levanta os olhos ao ceu: contempla o imperturbavel movimento dos astros, interroga o Creador, e diz: