Quanto á natureza dos engajados, disse-me que eram velhos. Conhecêra o Rapozeira, um d'oculos, que tinha loja de batinas e galoens para esquifes, na rua Chan: outro, era amanuense da camara do bispo—ambos muito borrachoens. E promettia pôl-a no olho da rua, se ella continuasse a fazer-lhe troça, por noite velha, em cima da cabeça, dansando o Sarambeque.

O Sarambeque era da natureza bordelenga do Hulalá, um bailado dissoluto, priapêsco das Ilhas Hawai. Eu nunca pude ver a assemblea da visinha, nem o cavalheiro bestial ajoujado por tal dama ás suas soirées dansantes. Quem quer que fosse, dava, no repicado sapateio da sua furia endiabrada de selvagem de Ceylão, oscillaçoens de terramoto ao predio. Muitas vezes, reciei que, verbi gratia, desabada aquella casa filial das orgias de Sardanapalo, eu fosse o candido bode expiatorio sacrificado no entulho da derrocada ás iras dos deuses e da senhoria. Depois, noite alta, havia comedorias—um aziumado de azeite rancido e alhos, estrugidos emeticos, emanaçoens sulphydricas d'aquellas almas latrinarias. Lamento, já agora, não ter então colhido notas para hoje me inculcar um Petronio testemunhal e authentico d'essas ceias de Trimalcião com iscas de figado e o rascante de Cabeceiras de Basto.

*

Um dia, de madrugada, acordou-me um grande berreiro nas escadas. O meu companheiro, o bom Machado de Carção, um medico que morreu ha muitos annos, foi examinar de perto a desordem, e contou-me que um velhote apopletico, com ares de jarrêta provinciano, estava gritando que Aurora lhe roubara vinte e cinco pintos da algibeira do collête, depois de o ter embebedado com genebra.

O roubado sahira em berros para a rua, e os calcêtas, que trabalhavam no lagêdo arrastando os grilhoens, assobiaram-no. Aurora dava gritos de innocente contra a calumnia, e a proprietaria intimava-lhe ordem de despejo immediato. D'ahi a pouco, a ladra era preza pelo cabo de policia, conduzida á regedoria e de lá para o Aljube.

Fui para a chimica do eggresso e encontrei o tenente Ribeiro. Contei-lhe o caso que elle me ouviu com os olhos marejados. Depois, pediu-me que commettesse o delicto infando da vigesima quarta falta na aula, e o ajudasse a salvar, se possivel fosse, aquella enorme desgraçada, visto que elle não queria figurar pessoalmente. Mandou-me ao regedor; que soubesse onde estava o roubado, e lhe restituisse os 12$000 reis para elle não ser parte á preza. Que lhe referisse eu a sinistra vida de Gloria para que elle, compadecido, a não mandasse ao tribunal. E que, depois, fosse eu ao Aljube, e lhe dissesse que, se ella embarcasse no primeiro vapor para Lisboa a procurar o amparo de seu pai, havia quem lhe pagasse as despezas.

Fui ao Aljube ás 3 da tarde. Lá dentro era noite. Gloria estava innovelada a dormir sobre uma enxerga a um canto. Ella tinha sahido, quinze dias antes, de uma enfermaria do hospital de Santo Antonio, quando a sua visinha, mais feliz, era levada, ainda morna, em uma padiola para o theatro anatomico. A devassidão emparceirada com a morte mandaram aquelle esqualido presente ao escalpello da sciencia. Ah! quantas curvas de musculatura roidas pelo hydrargiro eu retalhei para hoje poder, como testemunha de vista, jurar que o coração é um musculo ôco!

No soalho em que dormia Gloria, parecia que tinha choviscado lama. A enxerga era de uma preza, cujo cão de agua, gordo e muito sujo, dormia aconchegado dos quadris da outra. A dona do cão tinha uma cara cheia de enygmas, acidentada de periosteos cariados, exfoliados, com barbas. Seria uma riqueza craneologica para um Haeckel ou Topinard; mas para mim era simplesmente uma asneira paradoxal em anatomia comparada. Nunca me esqueceu. Lembro-me sempre da figura indelevel d'aquella mulher, quando nego a blasphema hypothese do Deus de Moisés e do sr. padre Grainha, um Deus que fez á sua imagem e semelhança e—o que mais é—á sua custa, um typo humano com o perfil divino d'aquelle feitio. Contou-me que estava ali por ter dado uns tabefes n'uma regatona de castanhas cosidas que lhe deitava o raio do olho ao marido, o João do Corgo, um calceta que andava a cumprir sentença de toda a vida, innocente, por ter ajudado a matar um padre. Innocente! Como ella qualificava a iniquidade da justiça social com seu marido que matára em collaboração um levita! Queria talvez que o premiassem como quem mata um lobo.

Com referencia á sua companheira, tambem a julgava innocentissima. Contou-me que se enchera de aguardente até cahir; e logo á entrada protestára que se havia de enforcar nas grades. Acrescentou, n'uma irritação de quem tem soffrido injustiças exulcerantes, que a pobre da creatura não roubára nada; que todo o dinheiro que tinha eram seis vintens em prata que comprára d'aguardente.

Entretanto, Gloria ressonava.