Era um bonito exemplar de um cancro roído pelos microbios de fóra, de parçaria com os microzimas de dentro—herança do Paraizo. Isso que ali tresandava era um dos abcessos estercoraes que genealogicamente nos vieram do ventre primordial de Eva, nossa matriarca. De lá nos deriva—divina Iniquidade!—esta syphilisação das almas, transmissivel e incuravel a despeito dos vários Robs depurantes, brevet d'invention, das pharmacias do Vaticano.

Em quanto ella dormia, fui a minha caza que pegava com o Aljube pelas trazeiras, e rebusquei no estafado colchão de Gloria os vinte e cinco pintos, visto que ella os não tinha em si. Lá estavam em uma bolsa de camurça. Fui com o dinheiro á regedoria, onde compuz o meu primeiro e inedito romance oral, nada auspicioso, contando á authoridade inflexa que a preza estava innocente, porque o queixoso, antes de se embriagar, escondêra o dinheiro no colchão, e não sabia depois onde o mettêra. O meu romance foi pateado, pelo sorriso do regedor, como inverosimil—desastre que depois me tem succedido com outros muitos romances, inspirados por intuitos menos louvaveis e mais verosimeis. Eu quizera salvar Gloria da imputação de ladra. Em todo caso, o funccionario, lavrado um auto que assignei como apresentante do roubo, embolsou o velho devasso, um negociante de fructa da Penajoia, que me queria dar um pinto de alviçaras, o qual eu regeitei com um pudor anachronico, arcadiano.

Eu que descera das penedias transmontanas, perfumadas das essencias das matas altas, vestidas do roziclér das auroras, da purpura vespertina dos crepusculos, de moitas de rosmaninhos, e resvalára á sargêta da rua Escura, fui como um archaico Thesouro de Meninos, cahido no enxurdeiro e focinhado por aquelle cerdo da Penajoia; ou, melhor comparado, era o nenuphar solitario, a impolluta nymphea do pantano portuguez de 1845.

Quando voltei ao Aljube estava ella muito atordoada, n'uma bestificação, a queixar-se de fome, porque não comia desde a vespera, e o alcool causticava-lhe as mucosas. Fui á estalagem da rua de S. Sebastião, ali ao pé, e mandei-lhe o jantar. Comeu pouco e não quiz vinho. Pediu genebra que lhe não dei. Ao anoitecer, chegou um quadrilheiro com a ordem da soltura. Acompanhei-a ao seu segundo andar. Ella olhava muito pasmada para o colchão que ainda tinha parte dos intestinos de retraço de palha moída por fora da abertura; mas não fez alguma reflexão em voz alta. Propuz-lhe a sahida para Lisboa no dia seguinte, com os meios que o meu amigo lhe liberalisava. Fallei-lhe no perdão do pai, na sua regeneração—fui tocante; e ella, com uma indolencia idiota, e um escancarar de bocca:

—Tanto se me dá como se me deu.

A mulher que, um anno antes, citava Lamartine, Victor Hugo e Sand estava assim estylista: Tanto se me dá como se me deu!

*

Como aquella senhora se despenhou vertiginosamente até cahir no fôjo immundo de uma devassidão bestialmente suja é phenomeno que só espanta quem não sabe logica, nem conheceu um exemplo. E quem não conhece trez exemplos que o dispensem de encadear os elos da logica?

Eis-me na rhetorica!

Eu não ignoro que esta especie de autopse em cadaver estampilhado com a infamia que não discutem pessoas que se prezam, é um archaismo, uma subjectividade obsoleta. A escola naturalista estabelece que a comprehensão publica está por tanta maneira salitrada d'estas podridoens que não carece da catechese psycologica para perceber o desabamento.