Quanto a Gloria que, por uma inconsciente zombaria de si mesma, ao atufar-se na noite caliginosa da miseria e da infamia anonyma, se chamára Aurora, se isto fosse um romance, pode ser que eu, n'esta idade provecta, ainda tivesse explosoens de fantasia rara para fazêl-a morrer de alcoolismo, no catre do hospital, para onde a levaram esfragalhada, mordida pelos cães vadios, apupada pelos gaiatos, sovada pelos pontapés da guarda-municipal, espumando gromos de sangue nos ultimos vómitos da aguardente.

Mas eu não sei como, nem quando ella morreu; nem sei se é viva e se está na quinta dos seus avoengos restaurando com capilés e agua de Lourdes o estomago e os erros da sua mocidade.

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Este episodio da mocidade do douto general, se eu o contasse ha trinta annos, teria os recortes, os matizes e filigranas idealistas da poesia que ainda n'essa epoca de transição enfeitava as suas dissecçoens nauzeabundas das paixoens animaes. Todo analysta da vida e da morte vestia umas luvas brancas quando expunha sobre a sua banca de trabalho uma peça anatomica, um coração para descoser, e sahia com as luvas sem nodoa. Era isso um grande mal. O romantismo poetico inflorava as putrefaçoens com côres e subtilezas taes de pétalas e aromas que, em vez da repulsão pelo podre, punha nas cabeças azoadas as vertigens dos abysmos. Essa perversa missão da Poesia soffreu o exterminio de todos os flagellos que estão ao alcance desinfectante e hygienico da Sciencia. Pouquissimos e esporadicos são já os poetas no termo genuino de «deturpadores da realidade». Os que ainda rimam deteriorando a verdade experimental com embustes methaphysicos são uns atavismos que fazem lembrar, na sociedade actual, as aberraçoens genesicas que remontam o homem á torpeza selvagem da Australia e á civilisação refinada da Roma de Juvenal, e da Grecia de Anacreonte. Essa chaga insanavel da besta humana esvurmará sempre a sua peçonha já em brochuras, já nas partes da policia por ultrages á veneranda Moral—uma velhinha tão trôpega que, assim que lhe embarram, cáe no asphalto, e entra a gritar pelo habil Antunes e por outros habeis que não ganhariam a sua vida officialmente gloriosa, se a Moral fosse mais acatada e menos atacada. O leitor, se é uma especie de habil Antunes da vernaculidade, seja indulgente com este jogo de vocabulos que tambem é um ataque desmoralisado á lingua.

Quanto ao poeta scientifico, genial, racionalista, concluida que seja a sua obra de sapa e a ultima batalha dada aos deuses, esse tem de desapparecer como inutil, e ridiculo como um archaismo. Ainda hontem, na França, Eugène Véron, no seu livro de ESTHETICA, escreveu que tout le monde, sauf les idiots, est poète. A condicional sauf, poderia excluir muitos poetas nossos conhecidos; mas Véron inverteu paralogicamente a excepção em regra. Elle, se fosse um digno interprete da Sciencia implacavel, deveria ter escripto: Ninguem é poeta, excepto os idiotas.

FIM.

[1] Bibliothéque des sciences contemporaines. Le préhistorique antiquité de l'homme, par Gabriel de Mortillet. Paris, 1883, pag. 105.

[2] Obra citada, pag. 106.

[3] La Sociologie, pag. 44. Paris, 1880.