Emfim, Ricardo, esta carta, sobre ser uma confirmação, quasi posthuma, de fidelidade no affecto a um dos meus mais velhos amigos, deve ser-te não menos agradavel como exemplo consolador de que as vidas mortificadas tem uma compensação—é acabarem com um sorriso. N'este paiz, os bastardos da Fortuna prostituta, se fizeram exame de instrucção primaria, devem morrer com a serenidade de sabios. D'antes, havia a immortalidade da alma e as recompensas eternas como esteio a infelizes sub-lunares. Hoje em dia, aquelles dogmas, especie de caput mortuum, não amparam muita gente; mas ha coisa melhor: é a eschola primaria que levanta o discipulo ao nivel da felicidade do professor a tres tostões por dia com dez mezes de atraso. Depois, morre-se de uma anazarca de philosophia com uma ligeira complicação de fome. Assim se explica o grande furor da instrucção nacional que tu, com uma seriedade estranha aos nossos habitos, inspeccionas observantissimamente.
Vai, fiscalisa, evangelisa. Dilata, quanto em ti couber, as celullas conscientes dos hemispherios cerebraes do Alemtejo e Algarve. Dá-lhes um elasterio grande, expansivo, na razão inversa das retracçoens da mucosa do estomago, á qual não chega a tua alçada tonica. Lembra eruditamente aos pedagogos que ninguem se exalça ás glorias do Thabor sem ser arrastado pela Rua da Amargura. Dize-lhes, afinal, que a posteridade, mediante as suas confrarias e os seus dobres a finados, lhes dará brindes de missas geraes em dia de Fieis Defunctos—muito distinctos dos defunctos infieis. E, pelo que me diz respeito, recommenda-me tambem aos suffragios pios da Patria—esta querida mãe interessante, incapaz de tirar de difficuldades um filho vivo: mas, depois, tira-lhe a alma do purgatorio, sendo preciso.
T. C.—S. Miguel de Seide. 6 de dezembro de 1883.
C. Castello Branco.
Gabriel de Mortillet, professor de Anthropologia, publicou, n'este corrente anno (1883), o seu livro Le préhistorique antiquité de l'homme. Em mais de uma pagina o sabio professor menciona respeitosamente Carlos Ribeiro, o geologo portuguez, que tão brilhantemente fez as honras da casa lusitana aos congressistas estrangeiros que estiveram aqui a discutir assumptos de anthropologia e archeologia prehistorica.
O general Carlos Ribeiro falleceu em 13 de novembro de 1882. A satisfação de se vêr tão culminantemente inaltecido no livro europeu de Mortillet não a gosou; e pena foi, porque seria essa a mais idealmente querida das suas recompensas. Bem sabem que os premios, os galardões substanciaes que n'este reinosinho de 90 leguas, como lhe chamava Garrett, auferem os sabios do quilate de Carlos Ribeiro são por tal modo notorios e fallados que a gente, pelo commum, apenas tem noticia dos taes sabios quando lhes vê o retrato posthumo no Occidente.
Estes homens trabalham em segredo como os alchimistas. Na Academia Real das Sciencias conversa-se, uma vez por outra, a respeito d'elles, com uma grande admiração do tamanho dos bocejos. Para os socios velhos a anthropologia apenas tem a caracteristica academica de ser palavra grega, e como tal a reverenceiam; mas ha d'elles que professam, muito pela rama, o quantum satis d'umas sciencias abstruzas que assentam os seus laboratorios para além das fronteiras da historia. É inexacto, porém, que o insigne academico discursasse monologos paleontologicos diante dos seus confrades pouco porosos e assás impermeaveis ás infiltrações da sciencia nova. Não. Elle tinha socios no martyrio—o Ferreira Lapa, o Thomaz de Carvalho, o Bocage, o Latino Coelho, o Corvo, o Aguiar, os quaes, se não encontraram, como Carlos Ribeiro, vestigios de um ser intelligente nas camadas terciarias, seriam muito capazes de o achar, se o procurassem, o Anthropopithecus.
Não se cuide que eu, com o selvagismo de um minhoto sem litteratura, pretendo molestar os hereditarios joanêtes da Academia. Nego. Os meus joanêtes de socio correspondente acham-se tambem compromettidos. Considero a Academia Real uma arca da sapiencia humanal, de reserva para a catastrophe de um diluvio de ignorancias eminentes. Respeito-a como um banco das nossas riquezas espirituaes, banco sem transacções, com accionistas todos de prenda, dando-se ares de estar sempre em liquidação; mas não liquida. Se não vive muito ao sol ardente que refunde o velho mundo, tem a vitalidade sombria do obituario. Quando um socio vae continuar na vida eterna o somno das suas sessoens, os confrades vivos gemem-lhe o elogio funebre, uma Nenia em periodos redondos, ore rotundo, na prosa da fundação do estabelecimento; em seguida, recolhem-se a brunir velhos adjectivos e a escovar algumas metaphoras de fivellas e rabicho, para a necrologia de um futuro confrade morto. De resto, muito mais modestos que justos juizes dos seus productos, os academicos, quanto ao estipendio das suas lucubraçoens, são mais abstemios que os anachoretas da Thebaida, e fazem livros mais em conta do que Santo Antão e S. Pacomio faziam balaios. Elles desdenham briosamente a cubiça gananciosa dos quarenta immortaes assalariados da Academia franceza; mas prelibam com delicias a justiça posthuma, o galardão do elogio funebre—esta rica moeda portugueza incorruptivel em que não entra a liga do oiro vil.
Tornando ao Anthropopithecus. Toda a gente sabe o que é, na Prehistorica, o Anthropopithecus; mas eu não me dispenso de fallar d'este sujeito que nos precedeu ha 240:000 annos, pouco mais ou menos. Supponho que não serei desagradavel ás Senhoras menos lidas em anthropologia, para as quaes os vocabulos pliocene e miocene, o mammifero primata, o prognatismo são as jaças do limpido diamante da sua erudição.
Mortillet, com bastante logica e com lucidissima observação mais convincente que a logica, affirma que o homem quartenario primitivo era algum tanto differente do homem actual. O craneo do nosso antepassado das cavernas differe consideravelmente do craneo do leitor. O illustre professor de anthropologia é, portanto, obrigado a concluir que os animaes intelligentes que petiscavam lume e lascavam pedras na época terciaria não eram homens na accepção geologica e paleontologica da palavra; mas sim animaes de outro genero, precursores do homem, na escala dos seres. A este precursor, intermedio ao anthropoide conhecido e ao homem actual, chamou Mortillet um Anthropopithecus. Claro é que a especie humana conhece o avô, o anthropoide; mas não conhece o pai. Orfan e posthuma, a desgraçada!