Carlos Ribeiro havia descoberto nas margens do Tejo o silex lascado em terrenos terciarios e quartenarios, accusando um trabalho intencional e intelligente no animal precursor do homem. No Congresso Internacional de Bruxelles (1872), duvidaram, mórmente o douto Bourgeois, que nos exemplares expostos por Carlos Ribeiro houvesse trabalhos intencionaes que provassem a existencia de um individuo capaz de petiscar lume e lascar pedras na época terciaria. A favor do sabio portuguez apenas se insurgiu a opinião auctorisada de mr. Franks.

Na exposição internacional de Paris (1878) o nosso geologo apresentou os exemplares, entre os quaes Mortillet apartou 22 com vestigios irrefutaveis de trabalho intelligente. Cartailhac abundou no parecer do seu collega e de outros especialistas.

Afinal, Carlos Ribeiro triumphou desassombradamente quando os congressistas na obra de Monte-Redondo, em Ota, confirmaram em novos exemplares a sua opinião refutada em Bruxelles. Desde então, nos annaes da anthropologia e prehistoria foi assignalada como irrefutavel a existencia do Anthropopithecus em Portugal. Era o terceiro. Bourgeois tinha explorado um em Thenay. Em honra do inventor, esse vestigio do animal intelligente anterior ao homem chamou-se Anthropopithecus Bourgeoisii. Mr. Rames achára o segundo em Cantal, o qual foi chamado Anthropopithecus Ramesii. O de Portugal, descoberto por Carlos Ribeiro, recebeu o glorioso nome Anthropopithecus Ribeiroii.[1]

Uma observação caturra ao sabio Mortillet: Este genitivo alatinado e ligeiramente macarronico, Ribeiroii, parece pertencer tambem á época terciaria, á prehistorica da lingua de Plinio, o moço. Ribeiroii em genitivo indica o nominativo Ribeiroius. O extremado anthropologista devera ter escripto Anthropopithecus Riberii, ou, mais euphonico, Ribeirensis. Espero e ouso pedir aos futuros congressistas que adoptem esta errata, afim de que o nome glorioso do nosso concidadão não vá latinamente deturpado pelas edades fóra.

Posto isto, a leitora naturalmente deseja saber que figura tinha o Anthropopithecus. Os sabios não satisfazem cabalmente a curiosidade de sua excellencia. Calculam apenas que elle era muito mais pequeno que o homem, attendendo á pequenez das pedras que lascava para seu uso; mas, a respeito do animal portuguez, a julgar pelo tamanho dos silex, presume-se que elle anatomicamente fosse mais encorpado que os outros. Isto é concludentissimo e consolativo, minhas senhoras. Mr. Abel Hovelacque, outro sabio, presume que aquelle nosso pai pequeno seria do tamanho dos actuaes macacos maiores.[2] Na verdade, os srs. bispo de Coimbra, conselheiro Nazareth e varios tambores-mores accentuam e affirmam a procedencia d'aquelle patriarcha mais avantajado no tamanho.

Bastará de sciencia? Mas o que não posso, minha senhora, é esquival-a ao desaire de proceder de macaco. Não lhe assevero que seja de chimpanzé, de gorilha, de orango. A minha esvelta leitora é o typo aperfeiçoado de todas estas familias. Segundo o genealogico Hoeckel, vossa excellencia promana de um pitheco, derivado de um lemur, producto de um kanguru. É a primeira vertebrada, e não direi primeira «mammifera» para evitar equivocos. Em todo caso, exquisita arvore de geração, na verdade; mas, se a minha delicadeza se dóe, sciencia obriga; porque, emfim, este folheto é uma obra de vulgarisação, à la portée des gens du monde. Pertendo ser mais util que agradavel ás senhoras modernamente orientadas, as quaes, entre os flagicios acusticos dos seus pianos e o moinho estupidamente burguez das suas maquinas de costura, abrem um parenthesis á discreta biologia.

E tenham muita fé, minhas senhoras; porque as sciencias de observação, diz Letourneau na Biologia mais avançada, exigem primeiramente de quem as quer cultivar um acto de fé. Acto de fé! Tambem a sciencia positiva reclama a sua virtude theologal. Pelos modos, é precisa tanta fé para acreditar no Jehovah de Moisés e no Messias de S. João Evangelista, como no «Pantheismo» de Espinosa, na «Vontade» de Schopenhauer, e no «Inconsciente» de Von Hartmann. Por tanto, façam suas excellencias um acto de fé como biologas, e outro acto de caridade como catholicas, prestando-me a sua benevola attenção.

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Carlos Ribeiro não andou toda a vida, como Boucher de Perthes, a esgaravatar nas camadas do globo a certidão de idade do homem. Tambem elle borboleteou á flôr da terra, com as azas polvilhadas dos matizes da alegria juvenil, os seus devaneios.

Entre os 15 e 16 annos, fingia eu que estudava chimica na Polytechnica do Porto. Carlos Ribeiro, n'aquelle anno, 1844, já tenente, com 30 annos de idade, completava mathematicas com sinceridade e aproveitamento. Era de estatura mediana, refeito, de espaduas fortes, rosto redondo, purpurino, com um pequeno bigode cortado na commissura dos labios muito nacarinos. Grave nas fallas, muito delicado em conselhos e attençoens com os cabulas; e sympathisava com a minha modesta ignorancia que elle, confessando a actividade funccional do meu cerebro, ingenuamente attribuia a eu não possuir compendio de chimica,—uma coisa bastante necessaria a quem se matricula. Era o Lassaigne—parece-me ser este o nome do sabio naturalista, que alguns condiscipulos generosos me emprestavam á porta da Academia, quando se avistava o lente, um ex-frade, Santa Clara, contemporaneo de Orfila, Berzelius e Liebig. Por que mãos sagradas andava então a chimica portugueza!