Aproveito a occasião para agradecer aos que ainda vivem, se algum vive, a gentileza do seu emprestimo, para que eu, em honra do frade, sahisse crystallinamente e triumphantemente do meu acto de chimica sem a macula de um R.

Já divulguei em um livro este caso á Europa culta.

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Agora, vou contar outro caso mais trovadorêsco—um episodio da vida amorosa do defuncto anthropologista, o general Carlos Ribeiro.

Por aquelle tempo, uma senhora esmeradamente educada no gosto da época, e com uma grande distincção de formosura, abandonára em Lisboa o esposo, e refugiára-se no Porto com um seductor de condição baixa e bens de fortuna parallelos. Este casal anticanonico habitava uma casinhola barata na rua da Sovella, paredes-meias do quarto escolastico de Carlos Ribeiro. O tenente, quando regressava da aula, via na janella de peitoril, uma vez por outra, a sua mysteriosa e lepida visinha encaral-o com uma fixidez perturbadora como um envoltorio de fluidos galvanicos.

Certa estanqueira estabelecida na loja da casa onde se aninharam aquelles amores clandestinos, informou-o da má vida intima dos adventicios. Havia desavenças todas as noites, gritaria, choradeira, e ás vezes repelloens reciprocos, a ponto d'ella cahir no sobrado. D'estas altercaçoens nocturnas, a informadora podéra liquidar que o homem se chamava Bramão, ella Gloria, e que tinha marido na capital. Entre os epithetos que elle lhe desfechava, o mais accentuado e repetido era bebeda, grandissima bebeda; e a estanqueira justificava a qualificação, contando que a menina Gloria, assim que o Bramão sahia, mandava ao armazem da Companhia fronteiro duas garrafas vasias que se trocavam por garrafas lacradas de 800 reis.—Acho que se emborracham ambos de dois!—conjecturava a mulher dos tabacos, offerecendo a sua opinião indecisa ao reflexivo freguez dos cigarros.

Uma noite, foi tamanha a gritaria, que a patrulha bateu á porta da estanqueira perguntando que gritos eram aquelles no primeiro andar. A mulher, na sua impaciencia de estrenoitada, respondeu azedamente que era uma creatura com a sua pinga; que fossem os soldados á sua vida, porque não havia remedio a dar-lhe á carraspana senão cozel-a; e que cada qual em sua casa podia embebedar-se como quizesse e quando quizesse. Se percebiam? perguntava colerica. E a patrulha: que sim, que a cozesse ella e mais a visinha. E a estanqueira:—Malandros!

Eram então triviaes no Porto estas scenas do Baixo-Imperio, dialogadas entre o pequeno commercio e os pretorianos municipaes—os janizaros do Costa Cabral. N'aquelle tempo, tudo que era tropa chamava-se pretorianos e janizaros—uns pobres diabos a 30 reis por dia e rancho de couve gallega com feijão fradinho. Depois é que expluiu o caceteiro, pago pelos edis, a 480 reis diarios, e mais, consoante a pressão exercida nos ossos parietaes do patulea.

O tenente estava á janella a escutar o alarido, sentia uma compaixão infinita por aquella formosa senhora; e scismava se a embriaguez seria refugio de grandes tribulaçoens n'aquella alma que se atirava a um charco de vinho para apagar a luz do intendimento e da memoria—perturbar a vida afflictiva da consciencia escorreita.

Na manhan seguinte a esta noite tempestuosa, Bramão sahiu e não voltou mais.