Acidulada sob a influencia das suas virginaes reminiscencias de menina e môça, etherisava-se. Ora, é regra corrente que o alcool, submettido aos acidos, transforma-se em ether. Insignes pharmaceuticos o asseveram. Todas as commoçoens internas são chimica. Isto, que d'antes se chamava alma, é uma retorta de cristal da Bohemia em uns sujeitos, e de barro de Estremoz em outros sujeitos. O grito das paixoens que desfibram e matam é o estampido da retorta que rebenta. Agora, a differença: se a retorta é de crystal, os estilhaços, embora embaciados de lagrimas, tem ainda rutilaçoens que encantam a Arte. E, se a retorta é de barro, os cacos abeberados nas lagrimas repellem a vista porque parecem lôdo. Edgard Pöe, Alfred de Musset e Baudelaire, envenenados pelo alcool, são hostias immoladas a um meio social responsavel—são retortas de crystal feitas pedaços pela paixão. O Sena cospe ás margens, cada mez, dezenas de suicidas que apenas tem vinte e quatro horas de nojosa exposição na Morgue. São os cacos da retorta de barro dissolvidos em lama.

Quanto a Gloria, para ser uma consummada tragica na voz e no gesto, bastara-lhe uma regra que não se acha bastante inculcada nas prelecçoens do Conservatorio Real das Artes scenicas, isto é: carregar-lhe no copo.

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Ácerca d'este elixir vitalisador das citadas Artes scenicas—necessidade physiologica (o copo, intenda-se, e não as Artes) do sangue luzitano de origem celtibera—não sei quaes sejam as cogitaçoens actuaes do meu Luiz Augusto Palmeirim, egregio director do Conservatorio Real. Cumpre-lhe, todavia, estar precavido contra as anemias e opilaçoens (opilaçoens, no sentido casto de chloroses) d'aquelle aviario de roussinoes e outros passaros que regorgeiam em perpetuo abril, estofando os seus ninhos com o pollen das flores.—Pollen das flores, notem a figura que é rara n'estes tempos hostis á rhetorica. Ora pois. Que aquelle seminario das Artes scenicas borborinhe sonoroso de interjeiçoens tremicullosas como calefrios, arranques tragicos, morbidezas de bemóes e sustenidos; e que, depois de um purgatorio de rabecas e pianos,—supplicio indispensavel—rutilem, ao diante, pelas trapeiras das aguas-furtadas do Bairro-alto as constellaçoens sidereas das Sarah, das Nilson, das Patti, dos Rubeinstein, n'este paiz de Manoel Mendes Enchundia, da Canna-verde, do Passarinho trigueiro e do Fado choradinho. Notem que o dr. Letourneau escreve que uma ponta de vinolencia é a poesia da digestão[3]; e tambem affirma que onde quer que se usa a bebedeira, existe uma litteratura bachante (pag. 45). A regra em Portugal falha praticamente. Temos a bebedeira sem a litteratura, talvez por falta de editores pouco serios.

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D. Gloria, não obstante, seria ridicula hoje em dia que a sciencia glacial esfriou a admiração pelas mulheres de talento menos methodico, desvairado por exorbitancias Vadias.

N'aquelle tempo as senhoras que recendiam essencias de macassar, e tinham sido iniciadas nas assembleias pelos parlapatoens da Restauração, eram assim. Reinavam os parvenus, uns devassos broncos, algum tanto desbastados pelo esmeril da emigração, ou sahidos das cadeias com uma grande fome de mundo, de diabo e de carne, os trez amigos figadaes do corpo, como explica methaphysicamente a Cartilha da doutrina para uso dos collegios de meninas. Elles tinham as fossas nazaes virgens do nitro das granadas do Porto; mas eram destemidos fundibularios de patacos regeitados á sege do sacrificado duque de Bragança que lhes dera patria sem os inconvenientes da forca, e dilacerára o coração nos sobresaltos das batalhas. Eram os bagageiros do espolio opimo com todos os caracteres ethnicos da siganagem portugueza. Compravam conventos com titulos azues e rebatiam a 17 p. c. os arriscados e sacratissimos emprestimos aos Regeneradores de 20 e aos pallikares empennachados da Belfastada.

Os parvenus inculcavam como norma da perfeição feminil a Corinna de madama de Stäel, a mesma madama em pessoa a fazer aos psycologos philosophias, e coisas mais praticas a Benjamin Constant, como a Récamier ao velho lubrico que fazia, da sua parte, o Genio do Christianismo. Todas e todos muito devassos e eloquentes, boas e bons para começarem os seus romancinhos ao fogão e concluil-os nas alcôvas. Foi este o ideal da mulher que os emigrados trouxeram dos boulevards e dos hoteis garnis a 2 fr. e 50 cent., com uma de-mão do verniz de Mabille.

Lia-se então copiosamente a obra emocional de Paul de Kock; e os hierophantas do reino restaurado folheavam com mão diurna e nocturna a Republica de Platão, onde o grande legislador, em pleno luxo de policiamento hellenico, preceituava que as mulheres passassem de mão em mão. (Livro V.) Esfervilhavam por isso as Xantipas com que os Socrates altruistas obsequiavam os Alcibiades, e floreciam as Marcias que os virtuosos maridos Catoens emprestavam aos Hortensios. Assim como nas lojas maçonicas muitos dos triumphadores de 34—um grupo sahido da barbaria da idade-media—se chamavam Catoens e Socrates, por igual theor, no sanctuario da familia, usavam os mesmos habitos greco-romanos. Foi por isso que, em 37, o apocalyptico autor da Voz do Propheta denominou Lisboa uma caverna de vicios e desenfreamentos.

Uma franceza, amante varia de varios francezes, mad. Pauline de Flaugergues, dava o tom em Lisboa, por esse tempo, em versos e frescor de cutis polvilhada de bysmutho. Rodeavam-na os areopagitas do plectro e da sintaxe, a mestrança da versejadura—Castilho, Garrett e os outros da constellação. Esta bohemia trovista foi dada como typo de mulher emancipada pelo talento. Teve ovaçoens das lyras primaciaes. Damas da côrte, creadas em novenas e lausperennes, atiraram as camaldulas ás ortigas e pegaram de fazer muitos gallicismos grammaticaes e pessoaes. Viveu-se uma rasgada bacchanal á franceza, em que tomaram o seu quinhão pro rata as mulheres dos marquezes, as filhas dos algibebes e as esposas dos ex-almoxarifes. É como foi. A D. Gloria era um fructo bichoso, sorvado, de arvore que não sevou a raiz em terreno alheio mal adubado. Era cedo ainda. Ás portuguezas faltava-lhes o savoir-vivre, para se aguentarem corrompidas e elegantes. Jam novus rerum nascitur ordo. Isto hoje está melhor—está como deve ser. A mulher cae; mas sabe cahir n'este palco; e não podia ser assim ha quarenta annos. Go ahead!