O certo é que aquella dama foi a primeira paixão de Carlos—a primeira que é tão forte e pouco menos tola que a setima e a vigesima nona.
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Trez mezes volvidos, Ribeiro tinha perdido a alegria, o affecto ao trabalho, a convicção da sua immaculada probidade, e já luctava com as duras hostilidades da pobreza. Quanto a Gloria, cada dia mais formosa, mais fascinadora e mais crapulosa. Elle chegou a pedir-lhe em joelhos e de mãos erguidas que se abstivesse de beber tão destemperadamente; e ella, no lucido uso das suas faculdades dirigentes, respondeu que não podia,—que o embriagar-se era o seu suave e doce suicidio, porque queria morrer.
Carlos obtivera informações de Lisboa. O pai de Gloria ainda vivia. Era um bom proprietario rural na comarca de Torres Vedras, tinha sido criado particular do snr. D. João VI, cazára com uma retreta da snr.ª D. Carlota Joaquina, e tinha o habito de Christo. O marido era mentecapto e velho. Perdera a rasão com a queda do snr. D. Miguel e do seu almoxarifado no Alfeite. Quanto a Bramão, um industrioso, vivia de apostas ao bilhar no Marrare das 7 portas e era casado com uma peccadora acirrante, uma trigueira de bigode que se desforrava usurariamente das perfidias do marido, sendo perfida para todos os amantes.
Meditava Carlos em commiserar o velho cavalleiro de Christo, na esperança de regenerar a dignidade de Gloria com a convivencia do pai venerando e das irmans honestas. O velho respondera a quem lhe pediu compaixão para a filha que a julgava morta, e morta devia estar para elle; mas que não a repulsaria do seu talher, porque a desgraçada tinha a seu favor como desculpa o haver casado constrangida.
Quando o tenente, triste pela deixar e alegre por salval-a, lhe communicou a resposta do pai, ella improperou-lhe a covardia de a não desenganar, se estava farto de atural-a, e reprovou a missão caritativa de a reconciliar com a familia, não tendo procuração para isso. Depois, trocaram-se palavras desabridas.
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No dia seguinte, D. Gloria deixou a casinha da rua da Sovella e foi para o Bom Jesus do Monte com um dos leões d'aquelle tempo em que a cidade da Virgem parecia ser da Venus Callipygia—uma leoneira da Hircania, onde as epidermes roliças das donzellas de Cedofeita e as ostras da Aguia d'Ouro eram o pastío nocturno d'aquelles dragoens, producto da concubinagem do romantico burro de Buridan com a classica burra de Balaão. D'esta progenie, que herdára da mãe o dom da palavra, e do pai um amor menos indeciso ás duas maquias, evolucionou-se o crevé, o estoiradinho, um phenomeno embryologico, que encaracola bellezas na testa exigua de microcephalo, incalamistra o bigode, e tem do D. Juan de Maraña simplesmente a guitarra com que perverte familias espanholas vigiadas pela policia medica. De resto e au fond, os estoiradinhos são grupos de moleculas, agregaçoens granulosas, saturadas de marisco, de cerveja barata da Baviera e nicotina, justificando a formula excentrica e um tanto paradoxal de Bacon: o vacuo de mistura com o solido. Protegidos pela lei geral do atomismo, agitam-se no turbilhão universal da materia inconsciente: são «acasos da concorrencia vital», como diria Darwin; mas não confundir concorrencia com selecção natural; que a natureza é mais logica e demorada nos seus transformismos. Pela rapidez com que do leão pujante de 1840 se engendrou o catita escrophuloso de 1880, é claro que a selecção foi artificial, estabalhoadamente, grande celeridade. A este respeito, os curiosos orientem-se em Topinard, L'Antropologie, passim. Cumpre notar que, no arranjo organico do estoiradinho, collaboram 65 elementos conhecidos, diz a Sciencia. 65! que prodigalidade! A não ser a Sciencia, quem diria que a Natureza para construir um cretino gastou quasi cinco duzias e meia de elementos—os mesmos que despendeu para fazer o mar, o espaço, o mundo sideral, os cyprestaes balsamicos do Libano e os fedores humanos da Baixa; o Caneiro de Alcantara onde os microbios fazem as suas regatas recreativamente, e o Amazonas, a banheira do sol, espraiando-se em escamas refulgentes; o Garrett que faiscava, como um cerebro de diamantes facetados, as Viagens na minha terra, e o cerebro do outro Garrett que supurava, como um tumor apostemado, as Viagens a Leixões! Com as ultimas palavras da biologia é que a Sciencia regeita o dogma da alma, e nos convence de que o estoiradinho, pelo que respeita á porção cinzenta do cerebro, deixa de ser o rei da creação para retroceder, por atavismo e sem hyperbole, á familia dos vibrioens, um quasi infusorio, e pouco mais que proto-organismo, irresponsavel pelos seus flagrantes delictos de brutalidade.
Em obsequio a estes irresponsaveis é que o bispo sr. D. Antonio Ayres de Gouvêa tanto e valorosamente impugnou a pena de morte. Todavia, o seu victorioso repto á forca, mallogrado em Beccaria, em Lamartine e V. Hugo, seria socialmente mais completo, se s. ex.ª tambem conseguisse que, em vez do menu pouco peitoral da strychnina municipalense, se servissem côtelettes de veau sauté aux truffes aos magros cães vadios, inoffensivos na sua fome e na sua sêde. Struggle for life. Sei essa trivialidade erudita; mas a lucta pela existencia não authorisa que os vereadores sejam carrascos dos cães, em quanto o equilibrio dos negocios publicos e o pagamento em dia dos 6 por cento das inscripções lhes permittir comerem o boi. Ora—digamol-o de passagem—o boi era um Deus entre os egypcios, o divino Apis, e entre nós é o manso e pingue holocausto de uma bestialidade carnivora; porque nós, os europeus, comemos os Deuses alheios em bifes, e os proprios em hostias. Sacrilega pouca-vergonha!
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