Ás dez horas da noite seguinte, Francisco Luiz e o seu amigo sairam de Coimbra, cada qual por diversa porta. O bemfeitor foi para Ourem, sua terra; o judeu da Guarda, por desvios escusos, entrou, decorridas duas noites de jornada, na abegoaria onde o esperava a mãe da creancinha, que bebia um leite aguado de lagrimas.
Dez dias volvidos, por noite alta, entrava no mesmo casalejo Francisco Luiz de Abreu, com uma ama de leite, e com a sua legitima materna n'um saco de moedas de ouro.
Contemplou a formosura da peccadora, e a formosura do innocente nos braços d'ella. Saudou-os, chorando, e tomou a creancinha muito aconchegada do seio.
—Como se chama o anjinho?—perguntou o academico.
—Tu o dirás—respondeu Antonio.—É teu afilhado.
—Seja Francisco—disse a mãe.
—Muito desejaria eu baptisal-o, e dar-lhe o meu nome—observou o academico;—mas tu sabes, Antonio, o resguardo que convém ter comvosco, com este menino e comigo. O meu parecer é que se esconda quanto ser possa a influencia que eu hei de ter na creação de teu filho. Melhor é que as suspeitas do mundo, se ellas vingarem descobrir ligações d'esta creança comigo, me julguem a mim, que não a ti, pae d'ella. O meu intento é alugar uma casinha em Coimbra onde a ama viva com elle. Não irei ser padrinho, para não dar corte á desconfiança de que elle seja meu filho. Assim se irá creando, até que eu conclua a formatura. N'este meio tempo, quererá Deus que tu voltes a Portugal.
—Voltarei eu?!—exclamou Antonio, apertando no mesmo braço o amigo, o filho, e a mãe, que estava lavando com lagrimas o rosto da creancinha, deitada nos braços do estudante.—Ver-vos-hei eu mais?—balbuciou, intallado de gemidos. Que futuros melhores posso esperar eu!? Como crês tu possivel o termo da perseguição?...
—Não sei—disse Abreu, fingindo esperanças.—Não sei... mas as voltas do mundo são tão espantosas... Todavia...—continuou elle com o alvoroço de uma já sincera esperança—não te lembraste ainda d'uma felicidade muitissimo possivel?
—Qual?—conclamaram os dois, para quem um raio de esperança era já cousa de estontear como a luz do sol aos exhumados das trevas de longo encarceramento.—Qual? que felicidade nos promettes, meu amigo?