A este tempo sobejamente sabia o conselho da inquisição que os christãos novos de Villa Flôr, se não eram sinceros judeus, tambem não eram sinceros catholicos. Qualquer das coisas, no entender dos theologos, era egual á outra como affrontamento á verdadeira religião.

Heitor Dias da Paz andava espreitado. Seus condiscipulos propriamente o provocavam a questões theologicas, das quaes elle se desembaraçava, dando-se como ignorante de subtilezas e aceitando os dogmas sem discussão. O conceito dos espiões de sua consciencia não melhorava por isso; quando muito, concediam-lhe a boa qualidade de judeu discreto.

Assim correu o segundo anno da sua formatura, sem acontecimento que o precatasse contra alguma violencia.

Voltou Heitor ao terceiro anno, com o coração retalhado de saudades de sua mãe que ficava morta. Levou comsigo para Coimbra o pae que se queria deixar morrer na alcova d'onde lhe levaram o cadaver da esposa. A convivencia do filho deu-lhe alma, e esperança de peito onde inclinar a cabeça na velhice. Não obstante, a saudade levou-o ás portas da morte.

Aquella ida do velho a Coimbra foi desgraça para Heitor. Francisco de Moraes, em risco de vida resistira a receber os sacramentos, porque o seu morrer, sem ritual de religião alguma, queria elle que fosse um como adormecer inclinado ao respaldo da cadeira. Estrondeou o escandalo nas abobadas dos conventos. Heitor, com o rosto coberto de lagrimas, quando sua alma estava a mendigar palavras de consolação, porque via alli o pae moribundo, tinha de explicar ás cataduras severas dos frades e visinhos a turvação de seu pae, e a, por isso, involuntaria privação de sacramentos. Redarguido nas satisfações que dava, replicou talvez com descomedimento, quando já seu pae se tinha passado a Villa Flôr. Da replica, provavelmente, foi lavrada acta no gabinete do procurador fiscal do santo officio. O certo foi que, vinte dias depois, Heitor Duarte da Paz, ao entrar nos geraes da universidade, foi acercado de tres familiares, que o conduziram ao carcere da inquisição.

Bemdita a mão da Providencia, que já tinha fechadas as palpebras da mãe d'aquelle moço!

Braz Luiz, comquanto desde o momento em que o seu protector foi preso ficasse privado de recursos para continuar como pensionario em S. Paulo, não foi despedido. Os frades paulistanos consideravam-no optimo estudante, e alma nova para se deixar fecundar em proveito da santa religião. Além de que o orphão, esquecido do nome de seus paes, senão engeitado d'elles, não tinha culpa minima do hebraismo de quem o protegia. N'este mesmo parecer assentaram os frades dominicanos: honra lhes seja. E, portanto, Braz Luiz conservou-se no collegio a expensas da casa, sem licença do reitor[4], e por largo tempo ignorante do destino de seu bemfeitor, até que, no fim d'aquelle anno de 1704, os mestres lhe disseram que Heitor Dias da Paz se estava purificando de peccados gravissimos, para remedio dos quaes lhe acudira a vigilancia misericordiosa do santo tribunal da inquisição.

Braz chorou muito, e caíu febril na cama. O chorar e o adoecer do moço mereceu compaixão dos mestres, que o consolaram com esperanças seguras de que o seu protector havia de sair limpo e absolto d'entre as mãos dos filhos de S. Domingos.

Recobrou o estudante saude, a tempo que Heitor Dias da Paz era transferido á inquisição de Lisboa, por motivos mais ou menos extraordinarios, que não vingámos averiguar. O que a toda luz evidenciámos é que o hebreu esteve preso desde 10 de janeiro de 1704 até 12 de setembro de 1706.

E como saiu elle do carcere? Absolto? Penitenciado? As feras das cavernas da santa casa esphacellaram-lhe as carnes? Deixaram-lhe ao menos o coração com algum sangue, aquelle coração de vinte e oito annos, para ainda se restaurar de encontro ao seio reparador d'uma esposa, que o anjo dos desamparados lhe houvesse entreluzido nas trevas da sua masmorra de seiscentos dias e seiscentas noites?