IV
Resposta

Abrira-se em ondas de luz o céo da manhã d'aquelle dia 12 de setembro de 1706.

Dobraram os sinos de S. Domingos. Apuzeram-se os folheiros cavallos das reaes cavallariças ás berlindas cosidas em oiro. As variegadas librés dos aulicos e ministros enfileiravam-se processionalmente depóz os coches do filho de D. João IV. Ia grande movimento e alvoroço nos mosteiros. Serpejavam innoveladas as multidões que desciam da cidade alta para o escampado do Rocio. O tanger dos sinos era de morte; mas o dia era de festa, festa da egreja triumphante, festa d'um auto da fé.

D. Pedro II e seus filhos apearam no alpendre do templo de S. Domingos; e em meio de filas de fidalgos, de frades, de desembargadores, caminharam mesuradamente por entre as naves, até se assentarem na sua alterosa tribuna, a tudo sobranceira, salvo á tribuna dos inquisidores, que era a primaz n'aquelle espectaculo satanico da piedade.

Para que tudo fosse egregio, até o prégador no auto da fé de 1706 era um dos mais doutos e famigerados interpretes dos evangelhos, sobre ser um dos mais abalisados escriptores de seu tempo. Nem mais nem menos que o reverendissimo padre mestre, geral da congregação de S. João Evangelista, chronista-mór de sua ordem, qualificador da inquisição, examinador das ordens militares, e, para em breve o dizer, sacerdote de tantas partes que, nem solicitado por D. Pedro II, aceitára o bispado de Macau. Já sabe o leitor curioso que se trata do padre Francisco de Santa Maria, author do Ceu aberto na terra, da Aguia do Empireo, da Saphyra veneziana e Jacintho portuguez, do Anno historico, de muitos volumes de sermões, todos esplendidos, todos laureados, todos christianissimos; mas nenhum tão esplendido, tão laureado, tão christão, como este que sua reverendissima vae hoje prégar no auto da fé, em presença de Suas Magestades e Altezas. Este episodio da festa explica as tumultuosas enchurradas do povo, que confluem da cidade alta á praça do Rocio: aquillo é gente que, a um tempo, fareja com delicias o fartum dos corpos que vão ser queimados, e aponta as orelhas pias para não deixar perder minima palavra da ungida oração de padre Francisco.

A procissão dos condemnados é longa. São mais de cincoenta, homens e mulheres, os que vão padecer ou galés, ou desterro, ou prisão perpetua, ou garrote e fogueira, ou a fogueira em vida. D'estes ultimos ha cinco, tres homens e duas mulheres, relaxados em carne, como rezam as sentenças.

Dois homens e as duas mulheres dão visos de já levarem obliterada a memoria da vida que deixam. Vão amparados nos braços dos officiaes do santo officio agonisando a espaços ancias soluçantes que lhes ressumbram á fronte um suor glacial. Entre elles, porém, caminha firme, direito, altivo, com a sua tocha de cêra verde na mão, e a samarra e a carocha pintalgadas de demonios e fogueiras, um moço de vinte e oito annos, gentil de sua pessoa, sem embargo da lividez cadaverosa de dois annos de carcere. É Heitor Dias da Paz.

O promotor da inquisição subiu á sua tribuna. Ao fim de quatro horas de leitura de cincoenta e tantas sentenças, indigitou o hebreu de Villa-Flôr. Dois esbirros com o alcaide do santo officio ladearam o moço, e conduziram-n'o a ajoelhar-se em frente da mesa sobposta á tribuna.

E o promotor leu o seguinte:

«Accordam os inquisidores, ordinario e deputados da santa inquisição[5] que, vistos estes autos, culpas, confissões e declarações de Heitor dias da Paz, christão novo, estudante de medicina, filho de Francisco Moraes Taveira, mercador, natural de Villa-Flôr, reu preso que presente está, porque se mostra que sendo christão baptisado, e como tal obrigado a ter e crer tudo o que tem, crê, e ensina a santa madre egreja de Roma, elle o fez pelo contrario vivendo apartado da nossa fé catholica, tendo crença na lei de Moisés, e fazendo em observancia da dita lei jejuns judaicos, estando nos dias d'elles sem comer nem beber, senão á noite depois de sair a estrella, ceando então coisas que não eram de carne, e deixando de comer a de porco, lebre, coelho, gordura e peixe sem escama, e guardando os sabbados de trabalho, vestindo n'elles camizas lavadas, e os melhores vestidos, começando a guarda d'elles da sexta feira á tarde.