«Pelas quaes culpas, sendo o reu preso nos carceres do santo officio, e com caridade admoestado as quizesse confessar para descargo de sua consciencia e bom despacho da sua causa, disse que o que tinha que dizer e declarar (sem o ter por culpa, antes por bom e necessario á sua salvação) era crêr firmemente em Adonai, Deus de Abraham, Isac e Jacob, assim e da maneira que o manda a lei de Moisés.
«E vendo-se na mesa do santo officio a cega e obstinada determinação do reu, lhe foi dito que considerasse bem a resolução que tomava em se não querer apartar da crença da lei que seguia, e como ia mal encaminhado em querer persistir na lei de Moisés, por que já n'ella não havia nem podia haver salvação, por ser acabada pela vinda de Christo, Jesus, senhor nosso e verdadeiro. E foi de novo admoestado tornasse sobre si; e, conhecendo seus erros, se apartasse d'elles, e se convertesse á fé catholica que tem, crê e ensina a santa madre egreja de Roma, cujo filho elle era e professára no baptismo, e confessasse inteiramente suas culpas, pois isso era o que lhe convinha para salvação de sua alma, e para se poder usar com elle da misericordia que a santa egreja costuma conceder aos bons e verdadeiros confitentes.
«E por tornar a dizer e affirmar com animo endurecido e obstinado, não só n'aquella sessão, mas em outras muitas que com elle se tiveram, afim de sua reducção, que não se queria apartar da crença da lei de Moisés, que seguia, antes estava prompto para dar a vida por ella:
«Veiu o promotor fiscal do santo officio com libello criminal e accusatorio contra elle, que lhe foi recebido; e se lhe disse que pois perseverava ainda na crença de seus erros com obstinação e contumacia, estivesse com seu procurador e lhe désse conta do estado de sua causa, e lhe pedisse o aconselhasse no que mais lhe convinha, e por elle respondesse ao libello da justiça, para que, guardados os termos de direito, se podesse continuar sua causa.
«Estando com o dito procurador, contestou o libello pela materia de suas declarações, e não quiz usar de defesa, pelo que foi lançado da com que podia vir, e ratificadas as testemunhas da justiça, se lhe fez publicação de seus depoimentos, conforme ao estylo do santo officio, a que não veiu com contraditas, pelo que foi lançado d'ellas. E estando outra vez com seu procurador para lhe formar os interrogatorios que quizesse, para serem reperguntadas as testemunhas que tinha contra si não veiu com ellas, dizendo que era desnecessaria diligencia, pois elle estava declarado e affirmativo profitente da lei de Moisés; e, como a não negava, não havia para que impugnar os depoimentos das testemunhas. E n'este acto escreveu um papel que declarou ser o assento que tomava em sua causa, e começava pelas palavras seguintes:—Perditio tua, Israel, tantu modo in me auxilium tuum, inquit Dominus.
«E logo continuava dizendo que elle reu não só não deixava a crença da lei de Moisés; mas se declarava crente e professor d'ella pelo theor dos termos dos autos, e queria ficar em juizo com a crença da lei de Moisés, na fórma seguinte, declarando: Que cria em um só Deus verdadeiro, e que este era o de Israel, o Deus dos patriarchas e prophetas, que fez o céo e a terra, e fez pacto com Abrahão, e deu lei a Moisés, e poz por primeiro preceito d'ella: Non habebis alios Deos preter me. E, como tal, tinha por damnada crença o christianismo, e por tal a excluia, abjurava e renunciava, e ainda qualquer signal e caracter d'ella. E assim elle reu, sem mais processo, queria ser julgado por apartado da fé e por passado á crença da lei de Moisés, mostrando que a differença que havia entre uma e outra coisa era adorarem os judeus sómente a Deus verdadeiro, e adorarem os catholicos o demonio; dizendo tambem e accrescentando ás ditas declarações algumas subtilezas e subterfugios cavilosos, com os quaes se colhia ser o reu verdadeiro judeu e professor da lei de Moisés.
«E sendo o reu chamado á mesa do santo officio, e n'ella perguntado se o dito papel em que se continham as ditas declarações era por elle escripto e assignado, e, se o que n'elle se continha era o que elle reu entendia e cria, e por elle queria se estivesse em juizo: respondeu que sim, e por aquellas declarações queria ser julgado; e sendo, advertido que fizesse genuflexão, e reverencia á imagem de Jesus Christo crucificado, que se lhe mostrou, e o inquisidor que o processava repetidas vezes lhe apontou, nunca o reu quiz ajoelhar nem olhar para a sagrada imagem, mostrando grande rebeldia e dureza de animo; e sendo de outras vezes mandado jurar pelos Santos Evangelhos nunca o quiz fazer, nem assignou mais papel algum onde visse escriptas as palavras santa inquisição.
«E pelo reu foi dito que não queria mais procurador nem mais interrogatorios; por serem desnecessarias mais diligencias, visto que elle já de si dissera ainda mais do que as testemunhas contra si tinham deposto.
«E continuando-se o processo da sua causa, se procurou em todo o discurso d'ella mostrar ao reu o caminho da sua salvação e engano dos seus erros, persuadindo-o á obrigação que tinha pelo baptismo a ter e crer na fé catholica, captivando o entendimento em obsequio da mesma fé, e dar credito nas materias de consciencia e religião ás pessoas que lhe foram dadas para o encaminharem; porque ainda que elle reu tinha algumas letras, não havia professado as divinas, e como tal não podia explicar as escripturas sagradas, nem entendel-as como entendiam os religiosos letrados com quem havia estado, fiando elle mais do seu proprio entendimento que dos outros, sendo elle n'esta materia ignorante e os ditos religiosos letrados, de quem se havia de haver por convencido, pois não tinha fundamento algum para permanecer na crença da lei de Moisés, que seguia, e por tornar a dizer que se reportava ás protestações de sua crença contheudas nos papeis que havia escripto.[6]
«E lhe foi dito que ainda estava em tempo de melhorar sua causa, se sem embargo da obstinação de que até alli tinha usado, desistisse d'ella, e, arrependido de seus erros, os confessasse com taes mostras e signaes de arrependimento que se podesse entender que elle reu, de puro e verdadeiro coração, se reduzia á nossa santa fé catholica, de que tão cega e obstinadamente vivia apartado, para se poder usar com elle da misericordia que a santa madre egreja costuma conceder aos bons e verdadeiros confitentes; que de contrario se seguia infallivelmente o risco de ver sua pessoa no mais perigoso e miseravel estado que se podia imaginar, e o que mais era para sentir, a certeza de condemnar sua alma ás irremissiveis e eternas penas do inferno.