«Ora filho do meu coração, convertere, convertere ad Dominum Deum tuum.
Convertei-vos para o vosso Deus, convertei-vos para o vosso Senhor, que, abertos os braços, e com o coração aberto, vos espera para vos metter n'elle como amigo, se do coração vos converteis a elle. Dae este gosto ao céo, dae este gosto á terra, dae este gosto aos coros angelicos e dae este gosto aos espiritos bem aventurados, dae este gosto a todo este numerosissimo e luzidissimo auditorio, que todo deseja com muitas veras a vossa vida e a vossa salvação. Na vossa mão tendes a vida e a morte, a salvação e a condemnação: vêde o que escolheis. E, se todavia persistis na vossa teima, e na vossa contumacia, da parte de Deus vos digo, que dentro em breve tempo apparecereis diante do mesmo Deus em juizo, do qual, sem desculpa do vosso erro, saireis condemnado para o fogo eterno.»
E com pouco mais terminou o monumental discurso, de que ficou muitissimo agradado o senhor rei D. Pedro II, e seus filhos; e bem assim o eminentissimo senhor cardeal D. Miguel Angelo Conti, arcebispo de Garzo, e nuncio apostolico n'estes reinos, ao qual o padre Francisco dedicou o seu sermão impresso.
D. Pedro II não mais saboreou outro sermão identico; porque, tres mezes e sete dias depois d'aquella explendida ovação da santa egreja, morreu.
O padre Francisco de Santa Maria, comquanto só passados sete annos fosse coroar-se ao capitolio dos anjos, como piamente crêmos que foi, tambem não voltou a regalar o publico nos autos da fé.
Cheguemo-nos ao assumpto. Os relaxados á justiça secular foram conduzidos a uma das salas da santa casa, em que estava junta a relação para os sentenciar.
A sentença de Heitor Dias da Paz, e dos outros já estava lavrada, embora fingissem lavral-a depois de um banal interrogatorio. Com ella na mão, perguntou o presidente ao judeu, ajoelhado:[9]
—Sois o relaxado Heitor Dias da Paz?
—Sou.