«Todos, ou quasi todos os annos vão muitos de vós ao patibulo, e sendo diante dos nossos olhos pasto á voracidade do fogo, nunca se viu em algum de vós algum prodigio. Que é isto? Assim deixa Deus a verdade escurecida e humilhada?... Agora já o fogo vos não tem respeito? Já a chamma lavra em vós como em madeira secca?»
Heitor Dias não sorriu então: caiu-lhe mortalmente angustiado o rosto para sobre o peito. As palavras do sacerdote de Christo levaram-lhe ás carnes o calefrio horrendo das dôres que o aguardavam para o fim d'aquelle dia: como que sentiu as linguas de fogo a tocarem-lhe o peito, e a suffocação da fumarada da fogueira.
Demonstrados os tres pontos da oração com quanta lucidez se esperava de tão conspicuo sujeito, o author do Céo aberto na terra apostrophou primeiro os confessos, depois os relapsos, e por derradeiro o unico profitente que era Heitor.
Aos confessos dava os emboras, e pedia-lhes pelas entranhas de Nosso Senhor que perseverassem.
Aos relapsos disse: «É verdade que já não podeis livrar a vida temporal; mas é certo que podeis assegurar a eterna... Morrer é natural: morrer affrontosa e violentamente é desgraça; mas sobre tudo isto, salvar a alma, é a maior ventura. Oh, que felizes sois, digo outra vez, se sabeis emendar com os acertos da morte os desconcertos da vida, e se vos dispondes com verdadeira fé e verdadeira contrição para a ultima hora!»
Que bom homem aquelle! O garrote e a fogueira eram indispensaveis á caridade e misericordia do Senhor; mas que montava isso? Morrer é natureza; morrer em colchão flacido ou em cama de brazas vivas é uma e a mesma coisa: é natureza; mas o importante alli para o caso já não era o ir-se um homem de este mundo ao outro por effeito d'um feroz homicidio: a questão era segurar a vida eternal, e essa estava arranjada, logo que os relapsos, á ultima hora, se entendessem com Deus uno e trino.
Em seguida, padre Francisco de Santa Maria poz os olhos sobre o confitente Heitor Dias da Paz, e exclamou, tanto ou quanto commovido:
«E vós, que n'este tremendo cadafalso sois o réo do maior delicto, olhae que em vós n'esse infeliz estado se verifica com propriedade lastimosa o que dizem as palavras do meu thema: De malo ad malum egressi sunt. Saireis de seres condemnado no juizo dos homens, e entrareis a ser condemnado no juizo de Deus. Saireis da morte temporal e entrareis na eterna. Saireis de um fogo que brevemente acaba, e entrareis em outro fogo, que para sempre dura. Oh filho da minha alma, é possivel que assim vos deixeis guiar só da vossa imaginação, e vos ateis tão fortemente á vossa teima em um negocio da tanta importancia? Tão pouco vae em salvar ou condemnar para sempre? Quero crer de vós que em qualquer negocio d'esta vida não havieis de obrar sem conselho, sem reflexão, sem madureza; e em um negocio, em que vae a vida eterna, assim vos resolveis, assim vos precipitaes? Nos pontos da medicina (que estudaveis) é sem duvida que havieis de estar pelo que vos diziam vossos mestres. Pois, se nos pontos de medicina, vos guiaveis pelo que vos diziam os doutores medicos, nos pontos da fé porque vos não guiaes pelos doutores theologos, que tantas vezes e com tanto zelo e espirito se empenharam em vos reduzir ao caminho da verdade?
«Dizei-me de que mestres aprendestes essa lei que seguis já tão antiquada e esquecida no mundo? Sem duvida de dois homens ignorantes, que talvez nunca abriram a escriptura, e talvez não saibam a lingua latina, e muito menos a hebrea. Não o tomeis por injuria—ajuntou o orador, certamente improvisando, como visse um gesto de repugnancia desdenhosa e despeitosa no aspecto do confitente—não o tomeis por injuria...; porque, fundado nas vossas mesmas escripturas, affirmo que na vossa nação falta ha muitos seculos, por justo castigo de Deus, o dom da sabedoria, e dominam as trevas da ignorancia.»[8]
Estende-se diffusamente o padre, cathequisando o judeu, com a mira posta em resgatar-lhe a alma, que o corpo esse já não ha eloquencia nem perdão divino ou humano que possa salval-o do fogo. Finalmente, remata a apostrophe n'estas branduras: