O prégador, no exordio, propõe-se demonstrar tres pontos: primeiro, que o Messias veio; segundo, que o Messias é homem e juntamente Deus; terceiro, que o Messias, homem e Deus, é Jesus de Nazareth, crucificado por aquelles, ou pelos antepassados dos judeus que estão presentes. Depois do que, implora a intercessão da sacratissima Virgem, e começa.
Eis-aqui um lanço que nos move a favor do geral da congregação dos Evangelistas:
«Comvosco fallo, ó infelizes filhos de Israel, e tomo para testemunha a Deus todo poderoso, que não é o meu intento insultar-vos, ou affrontar-vos em coisa alguma, nem tenho ou levo outro fim n'esta acção, mais que a maior gloria de Deus, a defensa da verdade, o triumpho da fé, o remedio da vossa cegueira, a salvação da vossa alma; e, se acaso com a força do dizer, proferir alguma palavra que vos offenda, desde aqui vos peço perdão d'ella pelas entranhas da misericordia do verdadeiro e altissimo Deus.»
Heitor Dias da Paz levantou de sobre as pinturas diabolicas do san-benito os olhos serenos ao rosto do padre Francisco de Santa Maria. Esteve-se quêdo alguns segundos n'aquella contemplação, e sorriu-se, a tempo que o orador, compungido em fervores de caridade, balbuciava aquellas expressões, que o leitor pio leu commovido.
Varias pessoas honestas, que viram o sorriso do hebreu, disseram umas ás outras:
—Veremos á tardinha se o marrano se ri na fogueira...
O orador, no emtanto, ia proseguindo na demonstração dos seus tres pontos, que foi completissima, sem deixar brecha á mais especiosa contestação.
Heitor, a cada conclusão triumphante do padre, sorria; e, por pouco não desfechava uma casquinada provavelmente sandia, quando o orador, repulsando a pecha de idolatras com que os hebreus malsinam os catholicos, argumentou d'esta sorte: «E como é possivel que, sendo nós idolatras ha tantos seculos, e sendo vós ha tantos seculos cultores do verdadeiro Deus; sobre vós ha tantos seculos que chovam os castigos, e sobre nós os favores? Sobre vós os castigos! Bem o vêdes, pois vos vêdes ha tantos seculos sem patria, sem honra, sem rei, sem patriarchas, sem prophetas, sem capitães, sem juizes, sem sacerdotes, sem templo, sem altar, sem sacrificio, sem liberdade. Nós os christãos tudo isto temos. Pois que? favorece Deus tanto aos idolatras, e castiga tão rigorosamente aos fieis?»
O impulso de riso do judeu, a meu vêr, procedeu da respeitavel ignorancia do padre quanto ás regalias de que os sectarios de Mafoma se estavam saboreando em porção do mundo sublunar muito mais larga e comprida que a porção alumiada pelo christianismo. Quereria, talvez, o israelita, sem embargo de se lhe estarem alcatroando as achas da fogueira, perguntar ao loyo se os mahometanos, apezar da bruteza e crassa estupidez de sua fé, eram menos felizes terrealmente fallando que os nazarenos. Ora, como o goso de questionar lhe seria amordaçado, se elle abrisse a bocca indignada, o judeu desafogou-se n'aquelle rir parvamente heretico. O caso, porém, não fez levemente titubar o impassivel prégador.
Ia discorrendo o padre Francisco pelas provas dos milagres; e veio ao ponto de asseverar que Deus não obrara milagre algum em confirmação da lei de Moysés. D'isto a prova mais insinuante que o douto prégador desfechou dos labios inspirados está no seguinte argumento: