Tambem desadorava os perfumes o nosso doutor, n'aquelle tempo em que o peralta de bom cunho recendia como caçoula de camarim de odalisca. Outra razão efficientissima do seu enojo de perfumes: «Sou de parecer que (o medico) evite os cheiros, e que se negue a todo genero de perfumes, porque ainda que Hyppocrates no seu tempo permittia os que não eram suspeitos aos achaques, comtudo n'este seculo mais escrupuloso por mais prevertido, nenhum genero de perfumes cheira bem... Deixemos esses esmeros para os que vivem á moda, e não excedamos a moda, que nem porque um medico cheira bem, cura melhor.»[12]
Em adornos capillares aceitava o doutor meramente os naturaes: usava simplesmente a sua opulenta grenha, nua de artificios e emprestimos; porque dizia elle: «Seja tambem modesto o medico nos adornos da cabeça, tão introduzidos n'este miseravel seculo, que não ha já encontrar solicitador sem cabelleira nem belleguim sem perruca.» E acrescentava: «Quantos desprezam e cortam hoje o honesto cabello de christãos e collocam sobre a cabeça as melenas de um herege!»[13]
O vivo desejo que Braz Luiz de Abreu alimentava de reformar as demasias luxuosas e derisorias dos medicos, tornou-se em justa indignação, e a indignação porventura fel-o poeta como ao satyrico latino. Um dos mais intelligiveis sonetos que elle escreveu em tom apostolico salvou-se do olvidio, graças ao acertado cabimento que lhe elle deu n'um seu livro de medicina. Resa d'esta sorte:
Oh, medico! se és medico com effeito
Procura mundo[14] ser, mas não mundano;
Que de Apollo o caracter soberano
Não anima nos vicios o respeito.
Bebe o cão, bebe tu; mas com tal geito
Que o crocodilo do rumor profano
Quando vás a beber do Nilo humano
Não possa devorar teu bom conceito.
Em teu ornato a modestia nunca falte,
Um pouco mais ao grave do que ao lindo;
Que assim obra quem douto assim discorre.
E porque a tua fama mais se exalte,
Visita a modo de quem vae fugindo,
Como do Nilo o cão, que bebe e corre.[15]
O desgracioso da musa do Olho de Vidro está delatando que o poeta, se não era menos de pedestre, poetava violentando sua indole. O natural d'elle era outro. A meu juizo, tanta prudencia e bom conselho no mais verde da mocidade, argue um aliás louvavel cuidado de se fazer bemquisto aos homens graves do seu tempo. É, de mais d'isso, muito provavel que o medico se temesse de que os rafeiros do santo officio lhe andassem farejando o sangue; e elle, a contas com a consciencia propria, duvidava da pureza de seus incognitos paes, ao lembrar-se do ritho hebraico dos bemfeitores de Villa Flor. Se os elle não conhecia, quem lhe asseverava que a inquisição os não conhecesse? Se lhe pedissem a certidão do baptismo, onde iria elle esquadrinhal-a?
VII
Exemplo de honestidade aos medicos
Quer fosse sisudeza, quer hypocrisia, Braz Luiz de Abreu, que então contava vinte e cinco annos, assim que o amor lhe abriu o peito com seus magicos dedos, sacudiu a canga do artificio e mostrou-se homem genuino. Deu elle tento de que os seus collegas todos eram familiares do santo officio, e todavia amavam a rosto descoberto; e, nas casas onde entravam, contra a prescripção do soneto, não procediam exactamente