Como do Nilo o cão, que bebe e corre.
Ora, como elle, de espaço, fosse vendo que a inquisição vivia despreoccupada d'aquelles cães do Tejo que bebiam muito devagar, bandeou-se com elles, e atirou o coração ás tempestades dos vinte e cinco annos, resalvadas as apparencias.
A primeira dama que se quiz senhorear da alma do seu medico, era uma fidalga quarentona, ainda vistosa, affeita a ser beijada na face por bons galans que se ajoelharam diante d'ella até aos trinta annos, e se purificaram da idolatria, desde que as flores do rosto, desbotadas pelo caio, e os cabellos ressequidos pelo ferro se foram despegando d'aquella cabeça rica de formosas tradições. Estava literalmente calva.
D. Claudia da Silveira, logo que se julgou encarada voluptuariamente pelo olho unico do seu medico, levou a mão ao peito e sentiu-se arder. Desde essa hora os achaques eram tantos e tamanhos que Braz Luiz escassamente se podia desobrigar de acudir-lhe tres vezes por dia com agua de Inglaterra, com pedra cordeal de Gaspar Antonio, ou com agua de lingua de vacca, antidotos de sua predilecção contra os estherismos e enchaquecas da senhora D. Claudia da Silveira.
A dama, cada vez mais enfermissa, tornára-se a desesperação da medicina gallenica. Dos linimentos á chaga interna que lhe cancerava as entranhas, um sómente dera satisfatorio resultado: era a presença do medico, o tatear d'elle no pulso arreado de manilhas, o apalpal-a nas costellas sobre e sub-jacentes ao coração. No coração nomeadamente é que ella dizia ter a morte, o morder e repuchar de dentes e garras do que quer que fosse. Resolveu o doutor que lhe dessem uma untura anodyna sobre a parte magoada. Resistiu a dama, quando viu a aia arremangar-se para o acto, e exclamou, repellindo a criada:
—Não consinto mãos estranhas no meu corpo! Antes a morte!
Braz Luiz de Abreu empenhou calorosas razões a persuadil-a, cuidando sinceramente que a dama soffria dolorosissimas palpitações. Da austeridade de medico passou ás branduras de amigo que muito lhe devia, porque a paga era mais que prodiga, e chegou a pedir-lhe consentimento para ser elle quem lhe friccionasse o seio.
Muito rogada e como incendida em pudor virginal, consentiu D. Claudia, referindo a sua condescendencia não tanto ao amor da vida, como ao horror de morte assim atribulada.
O leitor conhece decerto aquella passagem de um livro do padre Manuel Bernardes, em que se conta o caso de S. Effrem estar com uma das mãos untando o peito de uma formosissima mulher, que tinha parte de demonio tentador do santo, emquanto assentava a outra mão sobre um brazeiro para ir assim com as dores quebrantando os ímpetos da materia bruta, as fervenças da carne, como n'outro caso diz o mesmo padre oratoriano.
D. Claudia da Silveira verdadeiramente não tinha parte de demonio; porque o medico lhe deu a untura anodyna com tanta serenidade e quietação de corpo e alma, que só isso lhe bastaria a ganhar o céo, se a mulher fosse documento para merecel-o e argumento para pedil-o.