Operou o linimento muito devagar, segundo o medico ia entendendo da brandura dos ais e alquebramento da enferma. Afinal, cessaram de todo os gemidos por um suspirar descançado que parecia descair em dormir restaurador das forças extenuadas.
Braz Luiz de Abreu ficou vaidoso do seu triumpho, e despediu-se da dama, que lhe acenou de mão e cabeça tão levemente como quem a custo o fazia, vencida do turpor do somno.
Assim que elle voltou costas, D. Claudia sentou-se na cama, bracejou enraivecida, e despregou a murros phreneticos uma cortina adamascada que lhe ondeava por sobre o espaldar do leito.
Accudiu a aia a querer continuar a untura. A fidalga quiz atirar-lhe á cara com a taça do anodyno, e sentiu-se sinceramente febril.
A aia avisou o fidalgo, cunhado de sua ama, d'aquellas furias em que estava a senhora. O fidalgo, avesado a taes manhas, respondeu com magnanimidade indicativa da probidade austera d'aquella familia:
—Manda-lhe chamar o Olho de Vidro.
—Mas elle ainda agora saiu, senhor!
—Não importa: que torne a entrar, que torne a sair, que entre de novo, que faça o que ella quizer, comtanto que eu não ature minha cunhada Claudia.
Assim se fez.
Braz Luiz acabava de entrar no seu gabinete, para escrever no caderno de observações a rapida cura das convulsões de coração de D. Claudia com unturas de enxundia de pato e oleo de assucenas, quando um lacaio dos Silveiras o chamou a toda a pressa para a fidalga.