—Parece-me que está mais alliviada...—disse o medico.
—Um poucachinho...
—Pois as virtudes da raposa são miraculosas, minha senhora—proseguiu elle, confiado na efficacia da distracção.—A lingua da raposa trazida ao pescoço reforça a vista. As mãos d'ella trazidas ao pescoço preservam do quebranto.[18]
—Do quebranto!...—murmurou D. Claudia da Silveira—Ai! doutor, ha quebrantos sem cura! Ha arêjos que em pegando da gente o remedio é morrer.
—Feitiçarias, quer dizer vossa senhoria? Não é tanto assim. Contra esses temos os prodigiosos alexipharmacos da santa egreja catholica.
—Bem sei, bem sei—balbuciou a dama, com piedoso gesto.—Não é d'esses que eu tenho medo. O meu santo Antonio me defenderá... Ha coisas peiores do que isso n'este mundo... coisas que fazem perder a cabeça á creatura mais ajuizada. Tenções e protestos não montam nada. Que me faz a mim dizer: não hei de pensar mais n'isto ou n'aquillo? Apega-se a gente com todos os santos. Fazem-se rezas e promessas. Lembra-se tudo quanto ha de máo... E, chegada a occasião, tanto faz como nada! Ai!—suspirou ella, pondo as mãos ambas sobre o coração.—Ai!... pobres mulheres!... Só vós sois as fracas... as peccadoras... não é assim doutor?
Braz Luiz de Abreu, que n'este lanço estava espreitando de soslaio uns olhos que o espreitavam por entre o reposteiro—os olhos da engraçada e trigueira aia de D. Claudia—por pouco não é surprehendido pelo relance da fidalga, que o fitou muito no rosto, com ar interrogador.
—É assim, minha senhora, é assim—balbuciou elle.
—É assim, é—tornou ella—E que remedio sabe vossemecê para estes quebrantos, doutor?
—É conforme...—tornou Braz Luiz, sem atinar com a resposta conveniente, porque só n'aquelle instante percebera, com despeito de sua vaidade de medico, a enfermidade da fidalga.