—É conforme, disse vossemecê doutor...—volveu ella, anciosa de entender as reticencias.

—Sim, minha senhora... Ha varios modos de possessão, além dos conhecidos nas demoographias...

—Mão entendo isso—atalhou a fidalga—Pois a paixão d'alma tambem é feitiço?

—Se não é...—balbuciou o doutor.

—Leva as mesmas voltas—accudiu prestes D. Claudia, e proseguiu expondo com pouquissimo resguardo de sua honestidade as diabruras que o amor tinha feito em senhoras de sua amizade, não poupando na relação das taes diabruras secretas as suas mais proximas consanguinaes, e algumas impudicicias muito reconditas da côrte da primeira mulher de D. Pedro II, com a qual vivera nos primeiros annos de sua mocidade.

Ao correr d'esta narrativa, D. Claudia reparou no abstrahimento do medico, cujo olho, de instante a instante, punha fito ao reposteiro, e como que procurava pascer-se deleitosamente em qualquer cousa de fóra.

Assim prevenida e desconfiada, esperou azo, voltou a cabeça ao lado opposto da porta, retorceu-a rapidamente de novo olhando ao local suspeito, e entreviu a cabeça da sua criada grave Anacleta, por quem doidejavam quantos fidalgos novos e encanecidos a visitavam.

—Olé!—exclamou ella, erguendo-se de salto—Agora entendo!—E, correndo ao reposteiro, afastou-o de repellão, e disse iracunda:

—Anacleta! já hoje não dormes n'esta casa. Rua! Não quero testemunhas nem espiões do que se diz no meu quarto. Rua!

E, tornando com solemne passo para junto de Braz Luiz de Abreu, que assistia corrido áquelle conflicto, disse-lhe: