—E a hypocrisia de vossemecê, senhor doutor!... A feitiçaria da minha criada tambem se cura com os prodigiosos não sei que (o doutor tinha dito «alexipharmacos») da santa egreja catholica? Que hypocritas são estes medicos!...
E cacarejou uma risada secca.
—Pois que?!—tartamudeou o doutor, enleado até á irrisão.
—Eu logo vi!...—disse a fidalga, como em praticas de soliloquio comsigo mesma.—A promptidão das visitas... está explicada... Assim devia ser. Lé com lé, não falha o dictado. Cuidei que as minhas criadas serviam sómente aos meus criados. Bons tempos, em que os medicos se não sujavam com amores de servilhetas...
—Oh! senhora D. Claudia!—atalhou o pundonoroso doutor—vossa senhoria está-me insultando... perdoe-me dizer-lh'o, porque nunca cuidei de dizer isto a pessoa de sangue tão illustre... E, de mais, cavalheiro que tal diz a uma dama, não deve mais voltar á presença d'ella.
E, tomando o chapéo e bengala, fez uma arqueada cortezia.
—Faça o que quizer, doutor!—disse ella abespinhada, com o nó esterico nos gorgomilos—Faça o que quizer que vossemecê se arrependerá...
Braz Luiz de Abreu saiu offegante de despeito e tedio de D. Claudia da Silveira.
—Que tal está a pellada!—dizia elle de si para comsigo—A impudica!... E eu dar-lhe as unturas com a boa fé do mais soez enfermeiro! Chibata é que ella precisava nos lombos ociosos!...