Senhor do seu tempo e liberdade, o doutor Francisco Luiz foi a França inquirir de novo informações de Antonio de Sá. Nada adiantou ás colhidas pelo joalheiro de Villa Flor. O navio, que navegava para o Canadá, parecia que as ondas o tinham engulido e pulverisado nas profundezas dos seus abysmos. Nem a mais ligeira suspeita de que existisse um folego vivo d'aquella náo, a não ser que as duas galeotas de flibusteiros, então ancoradas na costa de S. Domingos, podessem dar noticia do naufragio.

Recolheu o doutor a Amsterdão com as esperanças de todo perdidas.

Seis annos decorridos, chegou á familia dos Moraes, residente em Hollanda, a nova de estar nos carceres da inquisição de Lisboa Heitor Dias da Paz. Foi grande luto e choro nas familias portuguezas de Amsterdão, entre as quaes tinha sido creado e educado o mocinho. Abriram-se as synagogas, e prostraram-se os de Israel, pedindo ao seu Deus que lhes redimisse da morte affrontosa do garrote e do fogo o mancebo, cuja genealogia promanava já da tribu de Levi. Bem sabiam elles que Heitor Dias da Paz havia de morrer profitente da lei de Moysés, e sómente por milagre do Senhor poderia salvar-se de morrer queimado.

Quando chegou a Hollanda a noticia do suicidio de Francisco Moraes Taveira e da imperterrita morte de seu filho, estes nomes gloriosos nas dypticas da nação fiel foram inscriptos no martyrologio hebreu. Assim o tinha sido o do medico Silva, que, apoz treze annos de carcere, fôra queimado em Lima, no anno de 1693, e, ao tempo que o fogo o devorava, um pegão de vento esboroou o tribunal onde elle havia sido condemnado.[27] Assim fôra santificado um judeu portuguez, o qual, apenas a fumarada da fogueira lhe levou aos pulmões as primeiras agonias, desataram-se-lhe os ferros, e foi arrebatado por um anjo, a tempo que os algozes exclamavam que o diabo o transportava em corpo e alma. Deus, para salvar o seu servo das angustias do supplicio horrendo, o arrancara d'entre as chammas, segundo o asseverado nas actas dos martyres. Não menos illustres em santidade eram para os hebreus o religioso da Assenção, queimado em Lisboa no anno de 1603, e o medico Sobremont, suppliciado em Lima, depois de vinte e dois annos de masmorra. Na Sylva, de Antonio Alvares, vem commemorada assim a crucificada vida d'aquelle martyr:

Veinte y dos annos in prison penosa
Por defender de Dios la verdad pura,
Termino arrastra la cadena dura
Que le da el ser la sacra ley su esposa.

Heitor Dias da Paz foi comparado na coragem da morte ao hespanhol Lopo de Vea, filho de paes christãos velhos, o qual se fizera judeu, e se circumcidára no carcere. A constancia de sua morte obrigou o inquisidor geral a dizer que nunca vira tão ardente desejo de morrer, nem tamanha confiança de salvação, nem tão completa firmesa, como a d'aquelle moço na flor da edade.[28]

O medico Abreu, para não arriscar a segurança dos seus parentes e amigos de Portugal, absteve-se de pedir informações de Braz, nos primeiros annos seguidos á morte dos judeus de Villa Flor. Corria o anno de 1710 quando elle se animou a indagar com a maxima cautela. Algumas pessoas foram disfarçadas a Coimbra, averiguaram com todo o resguardo, e nenhum esclarecimento alcançaram. Ninguem dava novas nem rastreava o destino do moço. Eram obvias as razões d'esta ignorancia: Braz Luiz nunca em Coimbra estivera na companhia de Heitor Dias da Paz, nem o collegial de S. Paulo ousava dizel-o, admoestado pelos frades, os quaes, por sua parte, movidos de compaixão do estudantinho, cuidavam em salval-o da nota infame de amizade com taes protectores.

O medico Francisco Luiz, se não esqueceu o filho de Antonio de Sá, desistiu de perguntar, como diligencia inutil, a paragem d'elle. Facilmente acreditaram que tivesse morrido, ou caísse em obscura indigencia, depois do auto de fé de 1706.

Em 1718 appareceu em Amsterdão a obra de Braz Luiz d'Abreu, publicada em 1717, com o titulo: «Aguias filhas do sol que voam sobre a lua.» O nome do author produziu estranho reparo em Francisco Luiz d'Abreu. Braz era o nome da creancinha, que elle entregára a Francisco de Moraes; o sobrenome e o appellido eram os d'elle.

—Quem sabe!—dizia elle á esposa—Cuidaria o filho de Antonio de Sá que era nosso filho?! Dir-lh'o-hia alguem, depois da morte de Heitor Dias da Paz? Por que ha de ter este homem o nome que lhe deixámos, e o appellido que eu tenho?...