—Pergunta a alguem de Portugal onde reside o author d'esse livro—lembrou Francisca.

De Portugal disseram ao israelita que Braz Luiz de Abreu era um medico residente no Porto.

Sem medeação de alguem, Francisco Luiz escreveu directamente ao medico do Porto estas palavras: «Pessoa interessada em querer saber quaes foram ou são os paes de vossemecê, pede-lhe que os indique, se os conheceu. Responda para Amsterdão.»

E deu o pseudonimo Elias Sarmento, a quem devia ser dirigida a resposta.

Braz Luiz de Abreu entendeu que a pergunta era um escarneo a elle desgraçado, que não tinha conhecido seus paes, e que, na maledicencia de inimigos, passava como exposto na roda de Villa Flor. Affrontado por tão certeira azagaia á sua immensa dôr e pejo de não poder dizer cujo filho era, respondeu n'estes termos: «Braz Luiz de Abreu responderia com um tagante ao judeu ou burro que lhe faz a pergunta, se não tivesse de ir longe procural-o a chatinar no templo, como Jesus Christo nosso Senhor fez aos avós de quem se esconde na terra dos impios, dos hereges, e dos crucificadores do Messias para o insultar.» N'um homem, chamado Elias, a allusão insultante devia de acertar infallivelmente.

Francisco Luiz de Abreu, lida a resposta, riu-se da sua illusão e da catholica ira do medico portuense. N'esse mesmo correio, foi-lhe de Portugal uma carta do amigo a quem elle perguntára onde residia o medico. A carta dava sobre o sujeito os seguintes esclarecimentos: Tinha sido creado com frades, á custa d'elles se licenciára, e era familiar do santo officio, e denominado o Olho de Vidro, porque, tendo perdido um olho em desordem, o substituira por outro artificial. Accrescentava mais que, na opinião de algumas pessoas, o tal Olho de Vidro era filho de um frade, se não fosse filho de tres frades.

Á vista d'isto e da resposta do author das Aguias, o hebreu acreditou evidentemente que este Braz não tinha de commum com o outro senão o nome.

XI
Treze annos depois

Francisca de Oliveira morreu no anno de 1730 em Italia, para onde seu marido se transferira, por 1724, a procurar-lhe ares restauradores da saude que ella a pouco e pouco perdêra em Amsterdão.

O medico, perdido o arrimo da alma aos cincoenta e cinco annos de edade, sentiu gravame e tedio da vida. Os bens da fortuna eram muitos; mas o veneno da saudade e da solidão, por ser bebido em taça de oiro, não lhe era menos lethal. Se elle fosse pobre, trabalharia, quebraria na canceira da lida suada para ganhar pão alguns espinhos da sua corôa de orfão de todos os affectos puros e sagrados, na edade, em que sómente esposa e filhos podem adoçar o amargo da velhice. Não tinha ninguem lá fóra. E em Portugal se tinha parentes nem os conhecia, nem amava, nem já esperava, nem queria ser estimado d'elles.