—Ha bons quarenta. Matriculei-me no primeiro anno de medicina em 1693.
—Noventa e tres?—perguntou Abreu com reparavel interesse; mas o ar de espanto passou, na mente do outro, como pergunta admirativa do muito longe que já ia a vida estudiosa do interrogado.
—É verdade. Ha que tempos isto vae!... Dos meus condiscipulos, que eu saiba, já não vive nenhum.
—Seria d'esse tempo—tornou Abreu—um portuguez medico que eu conheci em Hollanda?
—Como se chamava?
O doutor quedou-se a scismar largo tempo, e disse:
—Chamava-se Francisco... Francisco... Luiz...
—De Abreu?—accudiu o interlocutor—Ora se conheci!... Não era meu condiscipulo; era mais novo do que eu na universidade um anno; mas havia de regular pela minha edade. Fui amicissimo d'elle, e elle meu. Queimaram-no em estatua e mais a mulher, no auto da fé de Coimbra, em 1699, se bem me lembro. Ora se conheci! Ainda será vivo?
—Não lhe sei dizer. Ha muitos annos que viajo, e não voltei ao meu paiz. Tem familia em Portugal?
—Não lhe posso dizer; mas a mim lembra-me que elle tinha um filhito natural, posto que outros diziam que o pequeno era filho de outro hebreu, que andava desterrado. Esse filho desappareceu; não sei se elle o levou, se morreu por cá em companhia de parentes.