—Tambem a mim me está lembrando que esse medico me fallava muitas vezes n'outro hebreu condiscipulo d'elle... ora que me não accode o nome!... Um hebreu que fugiu de Portugal com a filha de um fidalgo, christão velho...
—Ah! já sei de quem vossemecê me quer fallar... Ha de ser Antonio de Sá Mourão.
—Parece-me que sim...
—Não podia ser outro. Conheci-o perfeitamente. Era o melhor estudante da faculdade medica. Sei a historia d'esse desgraçado, perfeitamente...
—Então sabe que fim elle teve?—atalhou Francisco Luiz.
—Morreu, o que eu sei é que o pobre homem morreu lá fóra e por pouco lhe não matavam os paes cá dentro. A minha casa dista da casa dos Cabraes, senhores de Carrazedo, meia legua. Veja se eu não estarei lembrado de tudo isso, conhecendo a morgadinha como as minhas mãos. Imagine vossemecê qual seria o meu espanto, quando, faz agora quatorze annos, a vi.
—A viu?!—exclamou Abreu—viu? quem?!
—A morgada de Carrazedo...
E, como soffreando a expansão, o viajante disse:
—Conto estas coisas a vossemecê porque é estrangeiro, e por que ella já morreu, e não tem que temer da inquisição. Que ella andou em Portugal incognita...