—Mas vossemecê viu D. Maria Cabral?—tornou Francisco Luiz.

—Justamente, D. Maria era o nome d'ella. Vejo que sabe tambem algumas miudezas da tragedia!... Pois vi-a com estes olhos; e vossemecê poderia vel-a tambem, se ella não tivesse morrido em 1718.

—Conte-me o que souber d'essa senhora, que tenho ardentissima curiosidade de saber os successos da vida de tamanhos infelizes...

—Olhe, o modo como o marido lá morreu por fóra, não m'o disse ella... mas, o melhor é contar-lhe desde o principio. Appareceu aquella senhora em Bragança, com uma menina de vinte e dois annos.

—Menina! filha d'ella?

—Sim, filha d'ella e do judeu Sá Mourão.

Francisco Luiz de Abreu arquejava, e parecia temer que a vida se lhe acabasse antes de ouvir o remate da historia. Mortificava-o, a vontade de ingranzar perguntas em tropel; sustinha-o, porém, já o receio de se privar das miudezas que o pachorrento narrar do homem promettia, já tambem o receio de se fazer suspeito pela demasia do interesse, bem que o sujeito se lhe afigurasse bom homem, e incapaz de o denunciar.

—Então ella tinha uma filha?—insistiu Abreu.

—É verdade. Linda como a mais linda estrella; mas a mãe, d'aquillo que tinha sido, não lhe restava sombra nem vestigio. Era uma sexagenaria, não podendo ter então mais de quarenta e quatro annos, cá pelas minhas contas, porque ella tinha dezeseis quando fugiu com o judeu da Guarda... Não me lembra o que eu ia dizendo...

—Que appareceu em Bragança D. Maria Cabral com uma menina...