—É verdade. Chegou a Bragança, e fallava muito confusamente o portuguez, e a filha pouco ou nada dizia. Tomou de renda uma casinha e para alli se metteu com duas criadas, que lhe chamavam D. Antonia da Piedade.
Depois de por lá estar alguns mezes, dando muito que pensar á curiosidade da terra, começou a sair com um aspecto muito doentio, e a dar passeios a cavallo pelos arredores. Chegou á casa de Carrazedo, onde ella tinha nascido, e mandou pedir aos moradores d'ella licença para lá passar as horas da calma. Foi recebida por pessoas que ella nunca tinha visto; mas que eram seus primos e sobrinhos, que tinham ido de Chaves tomar conta da herança de Fernão Cabral. Este fidalgo desherdára a filha, porque as leis lh'o facultavam, e nomeara herdeiros os filhos de uma sua irmã, que elle odiava, por se ter casado com um capitão de cavallos menos fidalgo do que ella. Mas o odio á filha avantajou-se tanto ao odio da irmã, que, em artigos de morte, receiando que os descendentes d'elle ainda viessem perturbar-lhe o somno eterno, desherdou-a e nomeou seus herdeiros os sobrinhos.[29] D. Maria soffreu voluntariamente algumas horas de martyrio n'aquella casa, e ouviu com enchutos olhos contar a uma de suas primas a historia da morgada de Carrazedo, mulher perdida por amor de um judeu da Guarda com quem casara. Soube como tinha sido desherdada e amaldiçoada pelo pae á hora ultima; agradeceu as sôpas que lhe deram os possuidores do seu grande patrimonio, e seguiu seu caminho. Ao escurecer chegou ao portão da minha casa, e perguntou se alli morava ainda, ou se já tinha morrido o doutor José de Barredo.
—José de Barredo! disse Abreu, sem ter mão da impetuosa reminiscencia que lhe accudiu.
—Sou eu. Parece-me dar vossemecê a entender que já ouviu o meu nome?!
—Não me é novo... tartamudeou Francisco Luiz.
—Póde ser que Francisco Luiz de Abreu lhe fallasse alguma vez em mim, quando lhe referiu a historia de Antonio de Sá, porque eu, não sei porque fatal compaixão de D. Maria, alguma parte tive nos amores funestos d'elles, prestando-me a receber da Guarda as cartas que elle escrevia á morgada.
—Naturalmente é de Francisco Luiz que eu conheço o nome de vossemecê, disse o doutor Abreu, olhando muito em fito as feições d'aquelle velho, que tinha sido em Coimbra um dos seus mais affectos contemporaneos.—Deixe-me apertar a mão de um amigo de Francisco Luiz—tornou Abreu, apertando-lh'a com estremecido enthusiasmo.—Se elle o podesse encontrar, senhor Barredo, estou que choraria, estreitando ao coração o homem talvez unico n'este mundo que lhe resta dos que na mocidade o prezaram...
—Certamente—disse José de Barredo enternecido a lagrimas.—Se elle vivesse, seria o meu mais velho amigo... que todos os outros morreram... A opinião que elle e Antonio de Sá tinham do meu natural, sendo elles judeus e eu christão velho, bem se deixa ver no procedimento de D. Maria comigo; pois, escondendo ella o seu nome e nascimento de todos, procurou-me a mim com o proposito de se declarar. E assim o fez.
Logo que me avisaram de estarem alli duas damas, uma das quaes tinha cara de doente, fui recebel-as ao pateo, cuidando que era consulta de medico. Conduzi-as á sala, e ahi D. Maria, com os olhos desfeitos em lagrimas, e muito embaciados, entrou a olhar-me, e a tremer, até que, expedindo um grande ai, se lançou nos meus braços, clamando: «eu sou a sua amiga da infancia, sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo!»
N'este ponto da narrativa, pararam os arreeiros á porta da estalagem de Thomar. Os cavalleiros apearam, subiram ao sobrado da estalagem e pediram almoço.