José de Barredo proseguiu, atando o fio com as palavras de D. Maria.

—Eu sou a sua amiga da infancia!—clamou ella—Sou Maria Cabral, morgada de Carrazedo! Faça idéa, e continuou Barredo—faça idéa do meu assombro, senhor... senhor... póde dizer-me a sua graça?... Um amigo do meu amigo da mocidade, não deve hesitar em querer a amizade que lhe offereço, e dizer-me o seu nome...

—Direi—balbuciou commovido o outro no mais correcto portuguez:—mas ha de ser com o coração bem perto do teu, José; abraça-me, e ouve-me muito baixinho esta revelação feita á tua alma: Eu sou Francisco Luiz de Abreu.

José de Barredo abriu a bôca até onde lh'o permittiam as articulações das mandibulas. A expressão d'aquelle seu grandissimo espanto foi um som rouco, similhante a um brado de terror. Em seguida, rebentaram-lhe subitas as lagrimas, e então sómente pôde o velho atirar-se todo aos braços do amigo, e exclamar:

—Ó Francisco!... se a inquisição te conhece!

—Tu sómente me conheces em Portugal—disse o doutor Abreu—E não temas por mim, que, se eu cair nas garras do santo officio, pouco mais se doerá do fogo d'elle este corpo empedrenido do que ha trinta e sete annos a minha estatua. Morto estou eu já, meu amigo. Que me faz a mim agonisar sobre as brazas da minha tristeza irremediavel, ou expirar mais depressa nas torturas da polé ou nas do garrote? Como quizerem...

José de Barredo quiz suspender a narrativa do tocante á viuva de Antonio de Sá Mourão para ouvir a dos successos de Francisco Luiz. Não lh'o permittiu a anciedade do amigo. Conformou-se o confidente de D. Maria, e continuou, ordenando aos arrieiros que fossem adiante e os esperassem no Arneiro, onde haviam de jantar, cinco leguas adiante na estrada de Coimbra. Continuou o doutor Barredo:

—O alvoroço que me fez o apparecimento d'aquella senhora alquebrada e de todo desfigurada, dizendo-me que era a formosa morgada de Carrazedo, só t'o posso comparar com aquelle que, ha pouco tu me causaste, Francisco. São dois lances da minha vida que já não podem repetir-se. Não tenho mais ninguem que esperar da minha mocidade. Era ella e tu; por que Antonio de Sá, esse não póde mais voltar...

—Creio que seria o mais ditoso dos teus amigos...—balbuciou Francisco Luiz.

—Oh! não!... pois tu desconheces a doçura d'estas nossas lagrimas? Dois velhos, que se amaram moços, e se encontram nos umbraes de outro mundo para se despedirem! Que é isto, senão o derradeiro calor da vida que ainda nos aquece os corações?... Demos graças ao nosso Deus, que é o mesmo Deus, ou elle se chame Jesus de Nazareth, ou Messias, ou simplesmente creador do céo e da terra. Suppliquemos-lhe que nos deixe já agora acabar estes ultimos dias um á beira do outro... Tu vaes para minha casa, não é verdade, Francisco?