—Irei a tua casa, irei, José; mas... estou a receiar que te esqueças da nossa pobre senhora...—disse Abreu, sorrindo, e enchugando as lagrimas.
—Tens razão; mas deixa-me ser feliz um poucachinho... Temos tanto tempo em que fallar dos outros desgraçados...
—Oh! se tu podesses dizer-me que ella ainda vive...
—Não posso, e pouco tenho que te contar antes da morte d'ella... Ahi vae o mais que sei. D. Maria perguntou-me se devia considerar perdido o seu patrimonio; e eu respondi lhe que sim; e pedi-lhe que nem fallasse em tal pretenção, se a trazia, porque os individuos possuidores d'elle seriam capazes de a denunciar ao santo officio, e de lançarem rezina aos páos da fogueira com as proprias mãos. Então me relatou ella a desgraçada vida que tivera por espaço de quinze annos, captiva de corsarios e mais o marido e filhinha: é uma historia longa, que eu te hei de mostrar escripta, em minha casa. Não t'a sei dizer de memoria porque ha quatorze annos que fechei e mais não vi os taes papeis, e já era minha tenção queimal-os para que por elles se não venha a descobrir quem é D. Josepha, a filha do judeu Antonio de Sá. Esteve D. Maria alguns poucos mezes em minha casa, soffrendo, sem treguas, molestia incuravel: estava ethica. Lembrou-se de ir consultar medicos famosos: bem sabia eu a inutilidade do passo; mas deixei-a ir ao Porto, a consultar um famoso medico chamado o Olho de Vidro.
—Braz Luiz de Abreu—atalhou Francisco Luiz.
—Esse mesmo, cujo nome tantas vezes me fez lembrar o teu, que cheguei a perguntar se elle seria teu parente; mas logo me disseram que não, e, para prova de que não era, bastou-me saber que o Olho de Vidro era familiar do santo officio.
Francisco Luiz interrompeu a narração para referir a correspondencia que tivera com o tal medico portuense, imaginando que elle, por um acaso maravilhoso, poderia ser o filho de Antonio de Sá, uma creança que...
—Muita gente—accudiu José de Barredo—e eu mesmo pensei que fosse teu filho...
—E admiro que não soubesses que era filho de Antonio de Sá!
—Não sabia; porque, desde a fuga da morgada, nunca mais tive novas d'algum d'elles, e bem sei eu por que: fiz repugnancia ao desvariado procedimento d'ella; cheguei a fazer-lhe ameaças de a denunciar ao pae, a ver se a dissuadia. Tu mesmo, se bem me lembro, ignoravas onde estivessem alapados, e cuidavas comigo que se tinham embarcado para a India. Depois desappareceste de Coimbra, e quando voltaste nada me disseste, nem eu t'o levo a mal, porque sei quão perigosa era a tua situação, e a dos paes de Antonio de Sá que o santo officio prendera na Guarda. Sabia eu que uma mulher creava em Coimbra uma creancinha que tu algumas vezes visitavas. Suppuz, como quasi toda a gente, que era teu filho... Morreu esse menino?