—Não sei. Presumo que sim. Ninguem me pôde informar, e bastas vezes pedi novas d'elle. Acaso te lembras da morte de Heitor Dias da Paz, de Villa Flor?

—Lembro, foi em 1707.

—Nunca ouviste dizer que em poder d'esse hebreu estivesse um moço, que então devia ter entre quatorze e quinze annos?

—Não ouvi dizer nada.

—Pois era elle, se existisse. Vamos ao fim da historia de D. Maria. Valeu-lhe alguma coisa a medicina do tal Olho de Vidro?

—Nada. Passados trinta e tantos dias, chegou a Bragança a nova de que ella tinha morrido, com o nome de D. Antonia da Piedade, e que sua filha D. Josepha tinha casado com o medico Braz Luiz de Abreu. Aqui tens o que sei. Haverá cinco annos que eu fui ao Porto e procurei o Olho de Vidro, no intento de ver D. Josepha. Disseram-me que elle, em resultado de inimigos seus collegas, que assanhára com a publicação d'um livro chamado Portugal Medico, tivera de afastar-se do Porto, e fôra estabelecer-se em Aveiro, onde tinha comprado muitos bens de raiz e vivia abastadamente. As minhas occupações não me deixaram ir a Aveiro, e já agora morrerei sem ver D. Josepha, que deve estar perto dos quarenta, ou quem sabe se já estará na eternidade!

—Irás agora a Aveiro comigo—disse Francisco Luiz.—Quero vel-a, sem que ella saiba que eu fui o maior amigo de seu pae. É preciso temer-lhe o marido, visto que elle tanta familiaridade tem com o santo officio. Tu a procurarás, e darás azo a que eu a veja e lhe falle como desconhecido. Uma boa lembrança... Irei consultar-lhe o marido, fingindo de doente estrangeiro, a quem chegou a nomeada de tão abalisado medico. Contar-lhe-hei muitissimos padecimentos que elle ha de classificar de muitissimas maneiras, e assim estarei mais ao alcance de ouvir D. Josepha dizer-me alguma coisa de seu pae. Ora, dize-me tu: nunca, D. Maria te disse que deixára um filho em Portugal, quando fugiu para Hespanha?

—Disse que esse menino o considerava morto: uma só vez me fallou d'elle; mas as lagrimas eram tantas que eu me esquivei a pedir-lhe pormenores da creança, de modo que nem soube que o menino ficára em tua companhia, nem depois passára á dos Moraes de Villa Flor. Eu não te disse ainda que D. Maria, ás temporadas, parecia cair em modorra e paralysia de entendimento. Esquecia-se e quedava-se n'umas cogitações taciturnas; e, se lhe tiravam muito pela falla, respondia disparates. De sorte que eu, a respeito do filho, que ella dizia ter deixado em Portugal, não cheguei a fazer perfeito juizo, nem a mesma filha estava convencida de que elle tivesse existido: a prova era que ella ouvia com certa estranheza as revelações confusas que a mãe me fazia sobre as desgraças do seu longo desterro e captiveiro. Póde ser que tu, Francisco, se te deres a conhecer a D. Josepha, venhas a obter muitos esclarecimentos, que eu mal posso dar-te porque sinto enfraquecida a memoria, e preciso espertal-a com a leitura dos meus apontamentos. Quem melhor te poderá referir a vida de Antonio de Sá, a meu ver, é o marido da filha; mas quererá elle—o familiar do santo officio e author da vida de Santo Antonio—que tu saibas a procedencia hebraica de sua mulher, embora possa ufanar-se de serem netos de Fernão Cabral os seus filhos? Não terá elle medo de que o santo officio lhe sáia ainda a pedir contas á mulher dos delictos do pae e da mãe?

—Isso é claro—observou Abreu.—Nem eu lh'o perguntaria, nem elle me contaria coisa alguma allusiva á filha de Antonio de Sá. De mais a mais, já eu te disse que resposta me elle deu para Amsterdão. Devemos ir prevenidos contra o genio irritavel do homem; é preciso muitissimo cuidado, que não vamos indiscretamente perguntar-lhe de quem é filho.

No dia seguinte ao meio dia, os dois velhos chegaram a Coimbra, e andaram procurando as differentes casas em que tinham morado.